A construção discursiva de Alice

Izaura da Silva Cabral* y Flávia Brocchetto Ramos**

Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves                      PPGEd/UCS
icabral@mx2.unisc.br                     ramos.fb@gmail.com


 

   
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Resumo: Como uma personagem se constrói numa narrativa? Como uma obra destinada ao público infantil ou juvenil pode contribuir para o autoconhecimento tanto da protagonista, como do leitor ao se identificar com aspectos do enredo? A análise de Alice no país das maravilhas procura, a partir da estrutura narrativa e da análise da construção da protagonista, destacar aspectos inerentes a construção da identidade do ser humano em diferentes épocas. Através da leitura, as crianças e adolescentes podem compreender que suas dúvidas, inquietações assemelham-se a viagem de Alice, com perigos, conflitos, mas que há um crescimento e um conhecimento de si.
Palavras-chave: leitor infantil; literatura; autoconhecimento; obra clássica.

Resumen: ¿Como una personaje se construye en una narrativa? ¿Como una obra dirigida al público infantil o juvenil puede contribuir para el autoconocimiento tanto de la protagonista, como del lector al se identificar con aspectos del enredo? La análisis de Alice no país das maravilhas procura, a partir de la estructura narrativa y de la análisis de la construcción de la protagonista, destacar aspectos inerentes a la construcción de la identidad del ser humano en distintas épocas. A través de la lectura, los niños y adolescentes pueden comprender que sus dudas, inquietaciones son semejantes a el viaje de Alicia, con peligros, conflictos, pero hay un crecimiento y un conocimiento de si.
Palabras clave: lector infantil; literatura; autoconocimiento; obra clásica

 

1. Introdução

Entre os escritores atraídos pelo fantástico e pelo misterioso, no século XIX, destaca-se Lewis Carroll (1832-1898), pseudônimo do professor de matemática Charles L. Dodgson. O reino das fadas e do maravilhoso torna-se fonte de inspiração para seus escritos, em especial, para a composição de Alice no país das maravilhas, publicada em 1865, na Inglaterra. Inspirada em uma menina, a narrativa trata dos ajustes e desajustes da criança, guiada pelo non-sense. O texto registra as incríveis aventuras de uma criança, Alice, que, ao dormir, entra em um mundo desconhecido, totalmente diferente do real em que vivia. O ingresso nesse imaginário ocorre depois de a menina correr atrás de um coelho que, muito apressado, passa por ela (reclamando estar atrasado e consultando um relógio que tirara de seu colete) e entra em uma toca. A menina cai em um poço que termina em um lugar onde tudo ocorre ao contrário do convencional; e onde ela vive situações divertidas e absurdas. A aventura, peculiar ao gosto infantil, faz com que a obra de Carroll, seja sempre nova para o leitor, independente do tempo ou do espaço onde a leitura se efetive.

Neste artigo, serão analisados aspectos inerentes à construção discursiva da história, no que se refere à atuação do narrador e das personagens, visando à constituição da protagonista e do provável leitor. A partir de tais dados, pretende-se discutir o processo de autoconhecimento de Alice.

 

2. A atuação do narrador e das personagens

O estudo inicia pela reflexão acerca da figura do narrador, que pode ser considerado o senhor da narrativa. Tem o poder de revelar e de ocultar, participa do conflito ou apenas o apresenta de modo discreto ou então marcando seu ponto de vista. Na obra objeto de análise, a história se dá a conhecer por meio do narrador onisciente seletivo (D’ONÓFRIO, 1995), uma vez que, mesmo sendo sujeito do discurso, apresenta o ponto de vista de uma ou de várias personagens, no momento presente. Como no exemplo em que o Rato conta a sua história, e Alice confunde o que ele fala. O leitor juntamente com o narrador assume o ponto de vista indignado do Rato: “Vendo assim confundidos seu rabo e sua história, o Rato ficou indignado” (p. 31).

O narrador emprega com frequência o discurso indireto livre e, por meio desse recurso de linguagem, apresenta ideias e sentimentos das personagens. Ele é transmissor e intérprete da visão de mundo da protagoista, como se percebe, quando a menina estava no bosque com animais comendo balas, mas, conforme a visão deles (apresentada pelo narrador), as balas eram muito miúdas, não dava para sentir o gosto e engasgavam: “Os pássaros grandes queixavam-se amargamente de que as balas eram tão miúdas que não davam nem para sentir o gosto. Os pequenos engasgavam-se e era preciso dar-lhes tapas nas costas para desengasgarem” (p. 30).

O leitor sabe que a menina se pergunta se valeria o esforço de colher margaridas para fazer uma guirlanda: “o calor daquele dia estava deixando Alice com sono. Ela perguntava a si mesma se o prazer de fazer uma guirlanda de margaridas valia o esforço de ir colher as margaridas” (p. 9). O narrador, enquanto mostra ao leitor as ações das personagens, também descreve sensações e sentimentos delas, penetrando no seu íntimo, buscando conhecê-las e revelá-las ao leitor.

Esse narrador pode ser classificado como autoritário por centralizar as informações, mas também é solidário com um leitor mais iniciante, porque tende a mostrar aspectos que talvez não fossem percebidos. Em geral, adota o ponto de vista das personagens e dá-lhes vida: ao adentrar em seus pensamentos, constata-se que o narrador sabe o quanto as personagens sofrem e mostra-se solidário, como no exemplo em que Alice, após beber o líquido de uma garrafinha, cresce muito: “Coitada! Esse desejo chegava um pouco tarde. Continuou a crescer e logo teve de ficar de joelhos no chão. Um minuto depois, nem isso bastava” (p. 36).

Crescer e encolher são questões presentes no processo de amadurecimento da protagonista e do provável leitor. A criança deseja crescer, ter autonomia, porém tem recaídas e em vários momentos quer ser novamente pequena. A presença de uma poção mágica que possibilita mudar de tamanho, dependendo das circunstâncias materializa os desejos infantis.

Tanto leitor quanto narrador penetram nas vidas das personagens, numa busca incessante pelo conhecer-se, já que até mesmo quando o narrador apresenta as falas das personagens, através do discurso direto, acrescenta comentários entre parênteses: “- Que esquisitíssimo! - gritou Alice (estava tão espantada que naquele momento, esqueceu-se de falar direito)” (p. 19, grifos nossos).

O narrador assume uma postura diretiva, uma vez que espera que as personagens, assim como o leitor, tenham certo padrão de conduta e, por isso, avalia, analisa até mesmo os procedimentos da protagonista: “Ela se dava, em geral, ótimos conselhos (é verdade que os seguia bem raramente) e às vezes se ralhava com tanta severidade que chegava a ficar com lágrimas nos olhos” (p. 16, grifos nossos). Essa e outras passagens da narrativa mostram exemplos de moral e boa conduta, como no momento em que Alice tenta dialogar com o Lacaio: “Alice o achava bem mal-educado por falar assim, sem nem olhar para ela” (p. 55, grifos nossos). Encontram-se algumas referências a padrões de comportamento - a criança deve ser educada, comportada, falar bem -, mostrando que Alice, mesmo sendo pequena, repudia atitudes inadequadas como no exemplo em que a Lebre de Março oferece à menina vinho, embora não haja vinho: “-E não há vinho, mesmo - disse a Lebre de Março. - Então é uma falta de educação, da sua parte, oferecê-lo - disse Alice, com raiva” (p. 63, grifos nossos).

O tom prescritivo surge em vários momentos da narrativa. A Lebre de Março encontra o Chapeleiro, esse diz que ela precisa cortar os cabelos, porém a protagonista se indigna com a ordem: “- Nunca se deve fazer observações pessoais - disse Alice, com severidade. - É uma grande indelicadeza” (p. 63, grifos nossos). Subjaz a narrativa, que o leitor - provavelmente a criança, em virtude da proposta do enredo - seja perspicaz, culto e tenha bons modos assim como a protagonista.

Alice é uma leitora que recrimina certas obras. No início da narrativa, critica o tipo de livro que a irmã está lendo: “- Para que pode servir um livro sem figuras nem conversas? - pensava aborrecida” (p. 9). Esse aspecto revela características do gosto infantil, principalmente, a sua preferência pelo discurso direto e pela ilustração, elementos que contribuem para materializar o conflito.

As leituras da protagonista auxiliam-na a tomar de decisões: Quando estava em dúvida se bebia ou não o líquido de um frasco que continha a inscrição “beba-me”, reflete a partir da ficção: “é que Alice tinha lido diversos relatos sobre crianças que se tinham queimado, ou que tinham sido devoradas por animais ferozes, ou a quem tinha acontecido mil coisas desagradáveis, simplesmente por que não prestaram atenção a algumas regras bem simples, que seus amigos lhes tinham ensinado” (p. 14). Esses aspectos indicam respostas para o problema deste estudo, no que se refere às contribuições do texto literário para construção do leitor real. Alice mostra que os livros ampliam o entendimento do leitor, trazem-lhe exemplos de como uma criança não deve agir, e, no momento em que está em dúvida sobre determinada conduta, a leitura pode mostrar uma alternativa. Na verdade, o caráter simbólico dessa narrativa contribui, principalmente, na articulação de um dos papéis fundamentais do texto literário, que é a humanização. “Toda obra literária é antes de mais nada uma espécie de objeto, de objeto construído; e é grande o poder humanizador desta construção, enquanto construção” (CANDIDO, 1995, p. 245).

Logo que Alice caiu na toca, constata que muitos episódios estranhos estavam acontecendo. Já que há a dúvida em relação à sua identidade e também há a perda de seu nome, o narrador apresenta os fatos ora em que a primeira ora em terceira pessoa, mimetizando a fusão, ou melhor, a confusão instaurada na protagonista. Quando as personagens são responsáveis pela informação, o discurso assume a primeira pessoa, confundindo-se com a visão exterior do narrador, já que ele é um observador. O leitor percebe que as personagens são livres para se expressar, contudo, a oscilação no modo de dizer confirma a crise de identidade de Alice. Como vemos no exemplo em que o Rato conta uma história aos personagens encharcados por terem caído no lago de lágrimas de Alice.

O narrador tem consciência de que a história possui um leitor, aproximando-o do discurso pelo tom coloquial, utilizando “vocês”, para se dirigir diretamente a ele, como no momento em que a menina narra a sua irmã as aventuras que viveu: “E contou à irmã tudo que pôde lembrar-se sobre as aventuras que vocês acabam de ler.” (p. 117, grifos nossos). Além disso, o narrador questiona ao leitor sobre o futuro da personagem, como se ele próprio já estivesse perturbado com a indefinição: “cada vez caindo mais... cada vez mais fundo... essa queda não pararia nunca?” (p. 10). Enfim, o narrador conhece a intimidade das personagens e solidariza-se com as mesmas, revelando peculiaridades dos seus conflitos. Ele é o senhor do discurso, mas age solidariamente tanto com personagens como com leitores.

Outro aspecto ligado diretamente ao humano numa narrativa literária são as personagens. Com relação a essa categoria estrutural, podemos dizer que sua construção e o modo como elas são apresentadas, bem como seus papéis, contribuem para uma maior identificação do leitor com o enredo. As figuras humanas que participam do relato são Alice e sua irmã; as outras pertencem ao mundo fantástico. A irmã de Alice aparece no relato apenas como interlocutora da protagonista, demonstrando que a criança não vive sozinha.

Alice é a menina curiosa e receptiva aos jogos de sentido veiculados pelas palavras. A viagem da menina representa metaforicamente uma experiência com as incongruências da vida. Do mergulho ao fundo do poço à volta à superfície, a menina aparece renovada, aberta e capaz de deslizar pelos conflitos. A protagonista experimenta o que parece ser absurdo e decide perseguir o Coelho Branco: “ardendo em curiosidade, correu atrás do coelho através do campo...” (p. 9). Além de ser curiosa como o leitor, tem iniciativas, tornado-se um exemplo a ser seguido. Logo no início de suas aventuras, quando cai no poço, experimenta elementos do seu entorno para ver o que acontecia: “Primeiro experimentou olhar para baixo e tentar ver para onde ia, mas lá embaixo era muito escuro” (p. 10). Como não bastasse: “(...) olhou para as paredes do poço e notou que estavam cheias de cartazes e estantes. Aqui e ali havia mapas e quadros. Sempre descendo, Alice apanhou um pote de doce numa das prateleiras” (p. 10). Aquele pote despertou-lhe, pois “tinha uma etiqueta: DOCE DE LARANJA” (p. 10). Possivelmente, ela se deliciaria com o doce: “Mas, para seu grande desapontamento, estava vazio” (p. 10).

Assim como qualquer criança, age, muitas vezes, inconsequentemente: “Num instante Alice estava descendo também, sem se perguntar nem por um momento como faria depois para voltar” (p. 10). Em razão disso, ao se envolver nessa aventura, julga não haver criança mais corajosa, parece que, a protagonista se torna mais destemida: “-Bem - pensou Alice -, depois de uma queda como esta, não vou ter medo nem que role a escada lá de casa. Todos vão me achar corajosíssima. Acho que até do telhado poderei cair sem susto” (p. 10). O envolvimento com os perigos da aventura levaria o leitor a lutar com seus medos.

Conforme Khéde (1990, p. 42), a história de Alice, mesmo enraizada em seu tempo, anuncia a modernidade, tanto que continua sendo lida e reatualizada, seja em adaptações impressa ou fílmica. A grande questão dessa obra é a identidade da protagonista, como se vê quando a menina perde a noção de quem é:

— Meu Deus, meu Deus! Como tudo está estranho hoje! E ontem tudo acontecia como sempre! Será que fui eu que mudei durante a noite? Preciso pensar um pouco: eu era a mesma de ontem, quando me levantei hoje de manhã? Se não me engano, estava me sentindo um pouco diferente. Mas se não sou mais a mesma, eu me pergunto: Quem posso ter virado? Que mistério! (CARROLL, 2005, p. 20).

Os questionamentos fazem parte da natureza humana, não apenas infantil. Alice busca conhecer-se, remonta situações e ambientes, os porquês e o funcionamento das coisas, do eu e do universo circundante. A partir desses porquês, emite um juízo e desencadeia uma assimilação solidária por parte do leitor. Alice é a metáfora do sujeito que se olha, que se pensa, comportamento característico dos primeiros estágios evolutivos da criança. Em razão de uma necessidade de defesa e de afirmação da personalidade, a literatura destinada aos pequenos pode apresentar essa evolução afetiva nas cenas em que a protagonista busca lugares solitários ou nos espaços emocionais, que lembram espaços simbólicos.

No âmbito simbólico, o universo afetivo da protagonista e do leitor desempenha importante papel. Toda decisão, indecisão ou deliberação é um diálogo mais ou menos explícito entre o eu e o seu duplo, que pode aparecer como oponente: “Uma vez chegou mesmo a tentar se dar duas palmadas, por roubar em uma partida de croqué que estava jogando consigo mesma. Essa interessante menina gostava muito de fingir que era duas pessoas ao mesmo tempo” (p. 16). Deste modo, o diálogo de Alice consigo mesma é carregado de repreensões como uma voz adulta: “-Você devia ter vergonha! - ralhou consigo mesma. - Uma menina desse tamanho, chorando dessa maneira! [...] Acabe já com isso, estou mandando” (p. 20). Assim como a protagonista, o leitor também pode não perceber sua individualidade.

A conduta de Alice oscila entre a cautela, senão ela não cairia no buraco, e o atrevimento - a tomada de consciência de si está em relação com um terceiro (outras personagens), evidenciando características como: capacidade progressiva para abstrair dados e referências que favorecem a introspecção; o aparecimento do pensamento hipotético-dedutivo com clara orientação para o futuro; a consolidação da crítica à sociedade (escola, cultura, adultos e o próprio eu); o interesse por descobrir e entender o seu entorno, especialmente nas questões sociais (o julgamento do roubo das tortas), culturais (o modo como vivem as pessoas de um provável país em que poderá parar depois da queda na toca do coelho) e aquelas mais intrínsecas à individualidade (o porquê da irritação de algumas personagens).

Assim, a perda da identidade implica outras perdas, como o esquecimento da tabuada e das lições de Geografia, aprendidas na escola: “Inglaterra é a capital do Brasil, Brasil é a capital da Europa, Europa é...” (p. 20-21). Nada mais é como antes, até sua voz e as palavras que diz fogem ao seu controle: “Parecia rouca e esquisita e dizia palavras que não eram as da verdadeira poesia” (p. 21). Mesmo que quisesse dizer algo de modo lógico, tudo lhe parecia sem sentido:

— Oh! Tenho certeza de que não há nenhuma poesia assim no meu livro - gemeu a pobre Alice e seus olhos se encheram de lágrimas. - Virei Isabel mesmo. Vou ter que ir morar naquela casa tão feia, quase não terei brinquedos e... ainda pior: vou ter montes de lições atrasadas para aprender. Não! Nunca! Se sou Isabel, vou ficar por aqui mesmo, no fundo do poço. E não adianta virem se pendurar na beirada e me dizer: “Suba, minha querida!” Não vou nem olhar para eles. Vou só dizer: “Primeiro digam quem sou. Se eu achar que me serve essa pessoa, subirei. Senão, ficarei aqui embaixo até virar de novo alguém que valha a pena” (p. 21).

Entretanto, ao mesmo tempo, Alice se vê em contradição, cansada de ficar sozinha torce para que alguém lhe chame: “- Meu Deus, eu queria tanto que eles se pendurassem logo na beira deste poço! Estou cansada de ficar sozinha aqui!” (p. 21).

O coelho surge como auxiliar de Alice, já que aparece em vários momentos e induz a menina a segui-lo. A caracterização do animal desperta-lhe a curiosidade: o coelho tinha um colete com bolso e ainda com um relógio de bolso. De acordo com Chevalier e Gheerbrant (1998, p. 540), os coelhos são lunares, dormem durante o dia e saem aos pulos durante à noite. A ambivalência simbólica do animal surge nas imagens ou crenças que imbricam os dois aspectos de seu símbolo - o fasto e o nefasto, o esquerdo e o direito - a ponto de ser difícil de isolá-los. A menina estava com sono, quando o Coelho Branco apareceu: “Sentiu que adormecia e começou a sonhar que passeava de mãos dadas com Diná...” (p. 12). Além disso, a simbologia paradoxal do coelho reforça a crise de identidade da menina, pois após o aparecimento do coelho, a protagonista não é mais a mesma, ele a desperta para um estágio de muitas descobertas.

Junto a Alice e sua irmã, o conflito da narrativa conta com outros personagens. São animais como Rato, Papagaio, Filhote de Águia, velha Carangueja e sua filha, lagarto Beto, Senhor Lagarta, Pomba, Lacaio - Peixe, Lacaio - Rã, Gato Caçoador, Porca, Lebre de Março, Rato Silvestre, Tartaruga Falsa, entre outros. Esses seres pertencem ao reino dos animais, mas movimentam-se por meio da fantasia e até desempenham ações humanas assim como acontece nas fábulas. Tudo segue a regra do absurdo, como no caso em que Alice pensa nos motivos pelos quais as personagens agiriam de certa forma e conclui que eles como pessoas: “Provavelmente, é a pimenta que torna as pessoas irritadas. O vinagre é que as torna ácidas. O jiló faz com que fiquem amargas. E o açúcar faz as crianças serem doces e bem educadas” (p. 87). Um desses animais que Alice encontra é o Senhor Lagarta, e a obra tem um capítulo intitulado: “Os conselhos do Senhor Lagarta”, onde sugere que se deve manter sempre o bom humor (p. 46). Outro personagem que se destaca é o coelho Branco (seria o auxiliar da protagonista), o qual impulsiona Alice a viajar pelo mundo do absurdo: “teve a impressão que nunca em sua vida tinha visto um coelho que tivesse um colete com bolso e muito menos um relógio para tirar do bolso” (p. 9).

A maior oponente para Alice e as demais personagens que auxiliam a protagonista nas peripécias é a Rainha de Copas. É temida, pois, a qualquer contrariedade, manda que os soldados cortem a cabeça do oponente. Representa o poder autoritário, e a determinação para “cortar a cabeça” poderia significar a perda da razão. Dessa forma, o narrador ironiza o poder que limita os seres, que impede o uso da razão, e o leitor mirim solidarizar-se-ia com as personagens que têm sua liberdade de expressão tolhida.

A presença de uma protagonista infantil acolhe as expectativas do leitor mirim. Essas histórias transportam o infante para a ficção, contribuindo para a identificação com aspectos do conflito, já que, como pontua Piaget, a criança internaliza mais ações a partir do momento em que realiza atividades em que ela estaria envolvida: “o egocentrismo desenvolve a idéia de que a criança começa por conceber as coisas através de atividades das quais elas são o objeto” (1975, p. 361).

As figuras adultas parecem que são banidas do universo ficcional dessa narrativa. Alice e sua irmã se tornam livres e vivem incríveis aventuras, já que o mundo dos adultos é predominantemente lógico, ao contrário do ficcional. Os adultos no relato pertencem à esfera do fantástico, por isso os leitores percebem que eles não têm compromisso com a autoridade. As crianças se tornam livres para se aventurar e brincar no enredo, de modo que tudo é possível ser vivido.

A narrativa indica que Alice e a irmã não viviam sozinhas, pois quando ela caiu na toca do coelho e começou a lembrar de sua gata, esperava que alguém alimentasse o felino, dando-lhe dar um pires de leite. Esse aspecto contribui para a verossimilhança do relato, já que as personagens “aparentemente crianças” não vivem sozinhas.

São recorrentes na narrativa aspectos que criticam, especialmente, às instituições voltadas à infância. Alice adota uma postura questionadora ao censurar as personagens que dão ordens e recrimina a escola: “-Como essas criaturas dão ordens e gostam de obrigar os outros a recitar lições! - pensou Alice. - É o mesmo que estar na escola” (p. 99).

A menina aproveitava os conhecimentos adquiridos na escola, como no momento que ela tenta calcular a distância percorrida por seu corpo, durante a queda na toca do coelho: “Alice tinha aprendido uma porção de coisas assim na escola. A ocasião não era muito boa para mostrar o que sabia, porque não havia ninguém ouvindo. Mas mesmo assim ela estava aproveitando para se exercitar” (p. 10).

Em síntese, o texto apresenta personagens e situações que transitam entre o real e o imaginário, e a criança surge como um ser criativo com o qual o leitor se identificaria. Também, a partir do deslocamento da protagonista para um mundo onde a fantasia é construída pela lógica do absurdo, o leitor, juntamente com a menina, conversa com animais, cresce e diminui seu tamanho a todo momento e se diverte com o non-sense que rege o espaço e as ações. Conforme Jesualdo, “a criança sente prazer em deformar a verdade geométrica, ampliando-a até o exageradamente grande ou reduzindo-a ao exageradamente pequeno. O colossal e o microscópico atraem-na como uma sugestão que o normal não possui” (s/d, p. 81). Assim, a dupla natureza de Alice satisfaz não só ao desejo paradoxal de o leitor ser grande e continuar pequeno, mas também a necessidade de enfrentar sozinho o universo desconhecido e vencer as dificuldades como fez a protagonista.

Conforme Coelho (1991, p. 159), o narrador explora o non-sense, que pode ser encontrado nas raízes do fantasioso universo de Alice. É a lúcida consciência do absurdo das regras e dos valores absolutos que, instituídos por um sistema, regem a vida do homem. E a denúncia desse absurdo se faz através de outro absurdo, que resulta da subversão não só às leis naturais que nos regem, mas, principalmente, às da linguagem. Em razão das traduções e das adaptações, a obra perde seu estilo peculiar, já que aspectos da intencionalidade da criação são alterados. Fica apenas o sentido do mágico, do maravilhoso que pode ser encontrado no cotidiano comum e prosaico, descoberto por Carroll (Ibidem, p. 162). De qualquer forma, para além do lúdico das impossíveis aventuras vividas por Alice, a narrativa continua atual, devido à ruptura com a lógica comum que ali se instaurada (Ibidem, p. 164).

Alice, leitora de contos de fadas, pensava que coisas fantásticas e absurdas somente aconteciam nessas histórias, mas agora, em meio a tantas aventuras, tinha certeza de que tudo o que estava vivendo era digno de virar história, já que sua experiência estava repleta de elementos que conhecia por ler contos: “Estou quase arrependida de ter descido por esta toca. Mas apesar de tudo... apesar de tudo... é mais interessante este tipo de vida” (p. 37). Aqueles momentos passavam a ser interessantes, pois ela podia reconhecer e reviver sensações já conhecidas através das histórias lidas: “Antigamente, quando eu lia contos de fadas, imaginava que eram coisas que não acontecem nunca. E agora vivo dentro de um conto de fadas. Deveriam escrever um livro sobre mim. Bem, quando for grande, eu mesma o escreverei” (p. 37). O leitor talvez relacione fatos dessa história a episódios de sua vida.

No terreno da fantasia, as leis são diversas do racional. O leitor pode acreditar que na fantasia tudo é possível, ele e a protagonista se acostumam ao extraordinário e consideram que a vida sem maravilhas não tem graça: “Pousou a mão no alto da cabeça para verificar se estava esticando ou encurtando. E teve a maior surpresa do mundo ao descobrir que continuava do mesmo tamanho. Normalmente, é isso que acontece quando se come um doce” (p. 17). Em meio a tantas novidades, a menina esperava que lhe acontecessem fatos extraordinários: “Mas Alice estava ficando tão habituada a só esperar coisas extraordinárias que agora achava absolutamente estúpido ver a vida acontecer de uma maneira comum” (p. 17). Conforme Coelho (1991, p. 158), as narrativas de realismo-maravilhoso (ou mágico) ocorrem no mundo real que nos é familiar ou bem conhecido, mas que passam a frequentar a esfera do mágico, pois ocorre algo de maravilhoso ou absurdo nas ações e acontecem fatos que alteram por completo as leis ou regras vigentes no mundo real.

Assim, Lewis Carroll explora com maestria as possibilidades de fusão entre o real e a fantasia. Para Coelho (1991), uma das grandes descobertas do autor foi ter conseguido romper com o equilíbrio do real, a partir de sua representação linguística. A subversão verbal destaca a relatividade das coisas, a partir do tamanho, pois Alice está sempre aumentando ou diminuindo, o que altera suas percepções acerca do meio, dos seres exteriores e de si mesmo. Suas aventuras continuam atuais, uma vez que a relatividade é ainda uma das questões fulcrais da humanidade.

 

3. Considerações finais

As personagens desta obra se movimentam de acordo com a lógica infantil, como, por exemplo, a ausência de limites precisos entre realidade e fantasia; o jogo de faz-de-conta. Nesse ilogismo, a protagonista procura conhecer-se e nessa incursão sugere ao leitor que ele pode, através da convivência com outros seres, mesmo que fantásticos, encontrar respostas para seus questionamentos sobre si mesmo e sobre o mundo que o rodeia.

Alice sai do universo conhecido, mergulha em desafios por espaços desconhecidos, assim como os heróis dos contos populares e retorna para o ambiente familiar mais do que modificada, regressa amadurecida. Para crescer precisa sair de si e do mundo próximo, precisa empreender-se pelo desconhecido. Em suma, pode-se dizer que a narrativa mostra como a literatura contribui para a aquisição de conhecimentos pelo leitor ou até mesmo que a literatura ensina ao leitor ser mestre de si mesmo. Além disso, o texto clássico contribui para o autoconhecimento que pode ser obtido através da atuação do narrador, da identificação com as ações e características das personagens e da reflexão, ou seja, da construção de um leitor implícito e, consequentemente, real. Para conhecer-se a si mesmo, o sujeito precisa refletir e interpretar-se, ou seja, o alcance do conhecimento está na relação entre o sujeito e o objeto do processo cognitivo, nesse caso a obra de Carroll.

 

REFERÊNCIAS

CANDIDO, Antonio. _____. O direito à literatura. In. Vários escritos. 3. ed. revista e ampliada. São Paulo: Duas Cidades, 1995.

CARROLL, Lewis. Alice no país das maravilhas. Tradução de Fernanda Lopes de Almeida. São Paulo: Ática, 2005.

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil: teoria, análise, didática. 5. ed. São Paulo: Ática, 1991.

D’ONÓFRIO, Salvatore. Teoria do texto. São Paulo: Ática, 1995.

ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. São Paulo: 34, 1996.

JESUALDO. A literatura infantil. Tradução de James Amado. São Paulo: Cultrix, 1993.

KHEDE, Sonia Salomão. Personagens da literatura infanto - juvenil. São Paulo: Ática, 1990.

 

* Izaura da Silva Cabral (Mestre em Letras- Leitura e Cognição pela UNISC, doutoranda em Letras - UFRGS, professora de Língua Portuguesa, Literatura e Língua Espanhola do Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves). iza-cabral@hotmail.com e icabral@mx2.unisc.br

** Flávia Brocchetto Ramos (Doutora em Letras pela PUCRS, professora no PPGEd/UCS). ramos.fb@gmail.com

 

© Izaura da Silva Cabral y Flávia Brocchetto Ramos 2011

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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