Linguagem e poder na internet: desdobramentos da indústria cultural

Eder José dos Santos*

UNIOESTE - Brasil
eder.jose@hotmail.com


 

   
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Resumo: Partindo de leituras sobre o método do materialismo histórico-dialético proposto por Karl Marx (o qual nos dá base para uma compreensão do funcionamento das sociedades) e também sobre a linguagem na perspectiva desenvolvida por Mikhail Bakhtin, este artigo pretende destacar algumas formas de sentido que, dada a imanente distinção existente entre classes sociais evidenciadas pelas contradições do ter/não-ter e ser/não-ser, manifestam estratégias de poder pela linguagem. Considerando-as por suas propriedades enunciativas, serão analisadas duas imagens materializadas e mediatizadas pelo site Desencannes a fim de se delinear a relação entre o modo capitalista de produção (esteado nas práticas de produção e de consumo de mercadorias) e uma interpretação sobre como tal modo é culturalmente significado e constituído nessas imagens. Nossa possível conclusão pretende estabelecer um desdobramento do conceito de indústria cultural inaugurado por Adorno e Horkheimer (pensado inicialmente sobre mídias como a TV, o cinema, o rádio e os jornais) tendo em vista instrumentos de mídia mais contemporâneos: o computador e a internet.
Palavras chave: Linguagem, Indústria cultural, Imagens virtuais.

Abstract: Based on readings on the method of dialectical historical materialism proposed by Marx (who gives us a basis for understanding the functioning of societies) and also about language in the perspective developed by Mikhail Bakhtin, this article seeks to highlight some forms of sense that, given the inherent distinction between social classes highlighted the contradictions of having / not-having and being / not beig, manifest power strategies by language. Considering the properties of their utterance will be analyzed two pictures materialized and mediated by Desencannes site in order to delineate the relationship between the capitalist mode of production (this in production practices and consumption of goods) and an interpretation of how such is culturally constituted and meaning in these images. Our conclusion would establish a possible deployment of the concept of cultural industries inaugurated by Adorno and Horkheimer (initially thought about media such as TV, cinema, radio and newspapers) in order to more contemporary media tools: the computer and the Internet.
Keywords:: Language, Cultural industry, Virtual images.

 

Disso sofre incuravelmente todo amusement.
(Adorno)

 

Materialismo e linguagem

Considerando as diversas concepções sobre o que é linguagem, o primeiro passo deste trabalho pretende deixar claro a partir de quais linhas filosóficas pensamos o funcionamento e o acontecimento da língua/linguagem. Certamente, devemos considerá-la não só pelas suas regras de uso (sintaxe e fonética, por exemplo), mas, além ainda da sua constituição com a cultura, cabe explicitar de que modo sua essência está relacionada filosoficamente com os objetos do mundo e, nesse sentido, qual sua relação com o plano material - pensado tanto na natureza (in retum natura) quanto nos objetos produzidos pela ação humana.

Quando Marx inaugurou uma nova forma de se estudar o movimento social, debruçado sobre a questão da economia política, o alvo de suas observações não era, de fato, a linguagem no sentido de compreensão da língua ou do funcionamento da linguagem. Sua preocupação se centrava sobre os modos de relação entre os homens, ou, mais detidamente, sobre o modo de produção sobre o material (daí o termo materialismo) e suas extensões, como toda a ligação direta e constituinte com a instância que ele conceituou como superestrutura. Na perspectiva dessa compreensão do funcionamento social - materialismo histórico - é o modo com que o homem lida com o material que determina as demais esferas do plano social por meio de um vicioso jogo de vice-versa em que, perfilando as demais atividades, são as ações humanas sobre o material que permitem a compreensão de instâncias outras como a ideologia, as relações de poder, as compreensões do outro e, o que mais nos interessa aqui, a própria linguagem.

Nas palavras de Marx, a relação é a seguinte: “O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina sua consciência.” (MARX, 1859, p.02). É a partir dessa inversão hegeliana, em que os homens não agem como se primeiro se lhes tivesse surgido uma ideia espiritual para em seguida agir/produzir, mas, ao contrário, são as atitudes com as matérias, com os objetos e produtos, com a criação e utilização dos meios de produção, que compartilhamos de Marx a concepção sobre sociedade, indivíduo e linguagem e, assim, as formas de ação do homem. Relacionando, por comparação, o modo de produção burguesa moderna com a linguagem, Marx diz:

A produção realizada por um indivíduo isolado, fora do âmbito da sociedade - fato excepcional, mas que pode acontecer, por exemplo, quando um indivíduo civilizado, que potencialmente possui já em si as forças próprias da sociedade, se extravia num lugar deserto - é um absurdo tão grande como a ideia de que a linguagem se pode desenvolver sem a presença de indivíduos que vivam juntos e falem uns com os outros. (MARX, 1859, p.03)

De resto, os estudos marxianos, extensos e complexos, incidem sobre muitos pontos no estudo do aspecto econômico social: mercadoria, relações de troca, consumo, distribuição, mais-valia, circulação, etc. Ao presente estudo interessa apreender a concepção marxista de sociedade e, a partir desta, a de linguagem, que, assim como os demais modos de produção, não pode ser pensada de forma individual como se cada indivíduo portasse ingênua e espontaneamente um leque de dizeres ao bel prazer de se comunicar para se fazer entender. Ou seja, ao considerar que a sociedade se estrutura a partir de um modo específico de produção (capitalismo) cuja finalidade é a criação, a detenção, o usufruto e a manutenção desigualitária de riquezas (inclusos aí os meios/instrumentos de produção) distinguindo, dessa forma, classes sociais - os que têm e os que não têm, os que são e os que não são - resta necessariamente considerar também que a linguagem não pode ser óbvia, clara ou despropositada. Há, desde as bordas até o mais longínquo histórico do acontecimento da palavra, relações de poder, coerções e conflitos não só na arena semântica, mas, principalmente, na própria motivação, na justificação do uso da língua/linguagem.

Se para justificar nossa compreensão de sociedade estratificada em classes nos valemos de Marx, Bakhtin nos dará a base de entendimento sobre de que modo a linguagem, conceitualizada de forma marxista, pode explicitar as relações de poder e de significância daquilo que é dito, escrito, materializado pela palavra através da interação verbal. Para Bakhtin, o estudo da palavra em seu acontecimento (interação verbal) é o meio mais adequado para compreender o problema da relação recíproca entre infra-estrutura e superestrutura, pois ela (a palavra compreendida enquanto signo ideológico) serve de indicador latente para observação das mais sutis transformações sociais. Segundo o autor:

As relações de produção e a estrutura sócio-política que delas diretamente deriva determinam todos os contatos verbais possíveis entre indivíduos, todas as formas e os meios de comunicação verbal: no trabalho, na vida política, na criação ideológica. Por sua vez, das condições, formas e tipos da comunicação verbal derivam tanto as formas como os temas dos atos de fala. (...) Estas formas de interação verbal acham-se muito estreitamente vinculadas às condições de uma situação social dada e reagem de maneira muito sensível a todas as flutuações da atmosfera social. (BAKHTIN, 1988, p.42)

Por isso, pelo propósito bakhtiniano, é necessário tomar a linguagem a partir da consideração de um universo de signos bem distinto do universo material, mas, cuja relação é intrínseca e mutuamente constituinte: “Ao lado dos fenômenos naturais, do material tecnológico e dos artigos de consumo, existe um universo particular, o universo de signos. (BAKHTIN, 198, p.32). Tal universo de signos não pode ser entendido se desvinculado do plano material em que o indivíduo está inserido. Se para Bakhtin a importância de uma filosofia marxista da linguagem está em considerar a percepção do momento e das circunstâncias em que a palavra deixa de ser signo neutro e é forjada a se comportar como signo ideológico, cabe observar os dizeres e, logo, as diretrizes ideológicas que as palavras implicam sobre a esfera material. Considerando que a sociedade (referimo-nos neste trabalho somente a aspectos brasileiros, mas, não ignoramos a amplitude global) se estrutura em classes devido a um modo de produção econômico que privilegia alguns e priva os outros não só dos meios da infra-estrutura mas, sobretudo, do desenvolvimento intelectual e do pensamento crítico, o fator ideológico que atravessa a linguagem só pode estar a serviço interesseiro de um dos lados - não sendo jamais de sentido unitário. A palavra enquanto signo ideológico em meio ao embate das distintas classes que, por estarem em constante luta acarretam contradições de interesses, se configura como arena de valores sociais, como instância sujeita à observação crítica cujo propósito está majoritariamente pendente com o modo com que a sociedade lida com os meios materiais de subsistência; tal como compreendemos por meio da palavras de Bakhtin:

(...) classes sociais diferentes servem-se de uma só e mesma língua. Consequentemente, em torno do signo ideológico confrontam-se índices de valor contraditórios. O signo se torna a arena onde se desenvolve a luta de classes. Esta plurivalência social do signo ideológico é um traço da maior importância. Na verdade, é este entrecruzamento dos índices de valor que torna o signo vivo e móvel, capaz de evoluir. O signo, se subtraído às tensões da luta social, se posto à margem da luta de classes, irá infalivelmente debilitar-se, degenerará em alegoria, tornar-se-á objeto de estudo dos filólogos e não será mais um instrumento racional e vivo para a sociedade. (BAKHTIN, 1988, p.46)

Ao introduzir o capítulo seguinte, em que trataremos de alguns dizeres de uma mídia contemporânea em pleno desenvolvimento - a internet, esperamos ter ficado delimitado o modo com que partilhamos a natureza da linguagem. Trata-se, enfim, da impossibilidade de desvinculá-la da esfera material abstraindo-a a uma mera atmosfera de ideias; de ser inocente e ingênua a observação sobre a língua que a toma fora dos âmbitos do embate material-ideológico de classes, desconsiderando as estratégias de poder articuladas e insistentemente efetivadas.

 

Sociedade web: segundo dilúvio ou segunda revolução industrial?

Em outro texto, Bakhtin (2000), preocupado com os tipos relativamente estáveis que a palavra (tomada já por sua propriedade enunciativa - como signo ideológico) pode ocorrer, destaca que as atividades verbais são muito variadas e estão indissoluvelmente relacionadas a algum tipo de atividade humana. Para todos os efeitos, já salientamos que a compreensão que fazemos de atividade humana, baseada no encontro teórico entre Marx e Bakhtin, está vinculada ao modo econômico de produção que uma sociedade engendra; o que acarreta considerar em primeira instância o constante trabalho empenhado sobre a produção e o consumo de mercadorias, como é o caso predominante na sociedade brasileira pré-capitalista [1] e, principalmente, sublinhar as matizes ideológicas que se concretizam dessa relação entre a atividade humana pensada como modo de produção/consumo e suas decorrentes atividades verbais.

Dentre as inumeráveis atividades verbais, optamos por focalizar nossas observações sobre o instrumento midiático contemporâneo que é o computador ligado em rede internet. O surgimento e o uso cada vez mais difundido do computador conectado à web (World Wide Web) implicam um olhar compreensivo às modificações nos modos de comunicação (de interação verbal, diria Bakhtin) da sociedade. Adam Schaff (1995) chega ao termo “Segunda Revolução Industrial” observando as complicações econômicas, políticas e culturais na qual a sociedade global atual se encontra interconectada e mergulhada pelo desenvolvimento da microeletrônica, da microbiologia e da energia nuclear, denominando-a sociedade informática. Segundo Schaff, o caráter da sociedade informática nos países do Terceiro Mundo (e ele inclui aí o Brasil) será catastrófico caso não haja medidas preventivas para um uso de bem comum que seja pertinente aos problemas de toda extensão social como a fome, o desemprego, o lazer e o sentido da vida, por exemplo.

Da mesma forma que há divergências sobre a concepção de sociedade e de linguagem, há também divergências sobre o propósito desse novo modo de comunicação. Pierre Lévy, filósofo francês da cibercultura, afirma que o espaço comunicacional da internet propicia a criação de uma inteligência coletiva entre os indivíduos:

O melhor uso que possa ser feito dos instrumentos de comunicação com suporte digital é, a meu ver, a conjugação eficaz das inteligências e das imaginações humanas. A inteligência coletiva é uma inteligência variada, distribuída por todos os lugares, constantemente valorizada, colocada em sinergia em tempo real, que engendra uma mobilização otimizada das competências. Assim como a entendo, a finalidade da inteligência coletiva é colocar os recursos de grandes coletividades a serviço das pessoas e dos pequenos grupos - e não o contrário. É, portanto, um projeto fundamentalmente humanístico, que retoma para si, com os instrumentos atuais, os grandes ideais de emancipação da filosofia das luzes. (LÈVY, 1999, p.199-200)

Vemos, desde início, que a mais breve análise entre sociedade, linguagem e internet requer uma tomada política e filosófica que delimite uma posição bem sinalizada mediante abordagens por vezes tão distintas. Tanto Schaff quanto Lévy preveem ser uma questão de tempo que a tecnologia da informática alcance todo o globo, mas, o que os difere teoricamente é o modo com que tal tecnologia se impõe e suas possíveis consequências.

Por analogia à passagem bíblica da Arca de Noé, Lévy diz que estamos todos em uma segunda arca (nossa condição frente à cibercultura) navegando sobre um segundo dilúvio (navegação sobre o imenso mar de informações do oceano digital), mas, diferentemente daquele que se esvai e assenta a arca no monte Ararat, “o segundo dilúvio não terá fim” (LÉVY, 1999, p.15). Adam Schaff cria uma analogia entre a “primeira revolução industrial” (a historicamente delimitada mais ou menos no início do século XIX) e esta segunda, cuja diferença:

(...) está em que enquanto a primeira revolução conduziu a diversas facilidades e a um incremento no rendimento do trabalho humano, a segunda, por suas consequências, aspira à eliminação total deste. Isto significa, por um lado, a libertação do homem da maldição divina do Velho Testamento, segundo a qual ele deveria ganhar o pão de cada dia com o suor do seu rosto. (SCHAFF, 1995, p.22)

No entanto, como para Lévy o rumo da cibercultura se desenvolve projetando um grande avanço em todos os sentidos e as questões problemáticas são paralelas de relativas soluções, para Schaff a expansão social sobre informática pode sim caracterizar um progresso, mas, mais provável é que tal rumo seja arrasador aos países em menores condições de informatização. De qualquer forma, não convém radicalizar a situação e se fazer maniqueísta ao fato das sociedades contemporâneas estarem inevitavelmente cerceadas pela informatização. A perspectiva de Lévy apresenta constatações relevantes, como por exemplo, sua avaliação de que a navegação na internet seja muito mais interativa do que o ato de assistir à televisão ou ouvir rádio. Porém, orientados pela filosofia marxista da linguagem, não podemos concordar com este filósofo da cibercultura quando este diz:

A cibercultura é a expressão da aspiração de construção de um laço social, que não seria fundado nem sobre links territoriais, nem sobre relações institucionais, nem sobre as relações de poder, mas sobre a reunião em torno de centros de interesse comuns, sobre o jogo, sobre o compartilhamento do saber, sobre a aprendizagem cooperativa, sobre processos abertos de colaboração. (LÉVY, 1999, p.130, grifo nosso).

Se assim fosse, estaríamos tentados a permanecer sob a filosofia platônica do idealismo para a qual o conhecimento e a verdade, residentes em um mundo metafísico de essências, emanam da relação direta do indivíduo com os objetos por meio de um simples ato de introspecção. Nesse sentido levyano (o trocadilho veio a calhar!), em que os laços sociais na cibercultura não exercem relações de poder, a percepção de linguagem parece ser próxima da que refutamos no início deste trabalho - univocamente transparente, sem conflitos, sem contrastes ideológicos. Ora, a cibercultura não é um “segundo mundo metafísico”. Muito pelo contrário, ela só é possível por meio de instrumentos materiais (peças, fios, o computador em si) que materializam, na luminosidade da tela, palavras/imagens já configuradas como signos conflituosos; como jogo de interesses distintos que remetem diretamente ao mundo real.

Pelos aportes bakhitinianos, salientamos (e as análises das imagens no capítulo seguinte nos servirão de apoio ao proposto) que o signo é ideológico por excelência e não pode ser desvinculado de juízos de valor que pugnam por poder: “As pessoas não trocam orações, assim como não trocam palavras (numa acepção rigorosamente linguística), ou combinações de palavras (...),” (BAKHTIN, 2000, p. 297), pois:

Toda época, em cada uma das esferas da vida e da realidade, tem tradições acatadas que se expressam e se preservam sob o invólucro das palavras, das obras, dos enunciados, das locuções, etc. Há sempre certo número de ideias diretrizes que emanem dos “luminares” da época, certo número de objetivos que se perseguem, certo número de palavras de ordem, etc. (BAKHTIN, 2000, p.313)

Veremos no capítulo seguinte, ao tratar da indústria cultural, como Adorno e Horkheimer criticam a filosofia que se endossa sob o legado do racionalismo iluminista e, induzindo a pensar a linguagem como mero meio unívoco de expressão, relega diversos outros juízos de valor para estabelecer o seu a partir do modo de produção que privilegia a classe dominante. Por ora, basta afinar nosso ponto de observação sobre a sociedade em relação à web/internet.

Segundo Schaff, o computador é um objeto produzido pelo homem e, assim, faz parte da sua cultura. Enquanto elemento da cultura, o computador online desenvolve problemas sobre o caráter social do homem na medida em que interfere diretamente, e muitas vezes fora de uma percepção consciente, sobre o modo de agir e de pensar que toma corpo em uma coletividade. Mecanismo tal que Schaff bem define:

Raramente o homem se dá conta de até que ponto seus atos conscientes são influenciados e, inclusive, determinados por fatores que estão além de sua consciência, ainda que estes fatores sejam inerentes à sua personalidade e à sua mentalidade e, sobretudo, ao seu caráter social. (...) Os fatores a que me refiro são fruto direto da cultura, são transmitidos ao indivíduo pela sociedade e interiorizados por ele; além disso, são transmitidos de uma forma tal que o indivíduo não se dá conta de sua existência e de seu funcionamento. (...) Entre tais problemas estão os estereótipos e sua influência sobre os atos humanos e sobre o caráter social do homem. Em ambos os casos, nos encontramos diante de produtos da cultura e, por conseguinte, as mudanças na cultura afetam sua forma. (SCHAFF, 1995, p.81, grifo nosso).

Valendo-nos dessa constatação, a análise sobre as imagens seguintes pretende focalizar justamente a transmissão do caráter ideológico que, jamais ingênua ou despropositada, influencia o caráter social do homem criando e cultivando os estereótipos que Schaff sublinha como problemas.

 

Desencannes e indústria cultural: desdobramentos

Em meio ao dilúvio de imagens e sons que inunda a tela online, cabe primeiro delimitar o contexto de aparecimento e de inscrição em que estas imagens, tomadas enquanto signos ideológicos pela concepção de Bakhtin, são discursivisadas. Tais imagens estão disponíveis no site Desencannes que se autodefine como um espaço para a publicação de:

(...) ideias absurdas que nunca foram e nunca poderiam ser veiculadas. (...) No Desencannes, são essas as peças que valem. (...). Aqui, ninguém julga se a peça funcionaria. O que vale é o humor inteligente, a sacadinha, a propaganda impublicável. (...) É a fantasia do “Já pensou se sai uma campanha assim?”. Isso é o Desencannes. A propaganda que não existe. Imaginária. Engraçada. Absurda. Sem compromisso. A publicidade fazendo humor de si mesma. Para brincar e se divertir. (

É importante destacar esta peculiaridade do contexto em que é publicada a imagem do Desencannes porque, através dessa estratégia de desinteresse à publicação ou à circulação do que se diz, articula-se o intuito de, mesmo assim, atribuir significâncias aos signos ideológicos. Por isso, se o site se diz próprio para publicar propagandas impublicáveis, interessa destacar que estas são impublicáveis conforme as regras de uma determinada ordem da atividade verbal, mas, não de outras - como o próprio recurso da internet (o Desencannes), por exemplo. Ou seja, se essas imagens não podem ser impressas em uma revista de ampla circulação ou transmitidas em uma propaganda televisiva, é porque suscitam interpretações que não podem e nem devem aparecer mediante ao processo ideológico predominante que determina o que pode e deve ser dito a partir de seu interesse e sob o domínio de certos meios de comunicação. Contudo, nem por isso deixam de existir. Vejamos a imagem 01:

FIGURA 1 (http://www.desencannes.com.br - Soul pobre - Jorge Amaral)

Notoriamente, à composição gráfica da imagem caberia observar uma série de técnicas operacionais. Contudo, basta, sobre a técnica, não ignorar o fato de que estas peças (propagandas impublicáveis) são produzidas por meio de softwares específicos como o Adobe Photoshop e o CorelDraw, por exemplo, haja vista que nossa preocupação é perceber a relação destes signos com os problemas de caráter sócio-cultural. Tentemos, de acordo com as propostas teóricas supracitadas, captar tal relação conforme nossa interpretação.

Ao tratarmos a imagem como signo não é pertinente separar os elementos de sua composição como se cada um funcionasse isoladamente, pois, é somente no “todo visual” que a leitura se completa. No entanto, sendo a ligação existente entre esses elementos o que possibilita a leitura do todo, é necessário compreendê-los, também, por essa relação. O enunciado “Soul pobre”, por exemplo, reclama uma interpretação exclusiva pelo fato de aparecer junto com a imagem do novo modelo do veículo Uno. Se “Soul pobre” aparecesse sem a imagem do Uno ou sobre outro veículo qualquer, o sentido já seria totalmente distinto.

Os índices de valor de que fala Bakhtin parecem funcionar/brigar neste signo da seguinte maneira: há um automóvel (o Soul, de fabricação da empresa Kia Motors) que é considerado mais luxuoso, mais sofisticado e de maior custo do que um outro (o novo Uno, de fabricação da empresa Fiat) chamado carro popular, mais barato. É a partir deste contexto que podemos estabelecer leituras da imagem 01 como:

a) O automóvel novo Uno é uma versão pobre do sofisticado Soul.

b) O novo Uno é para pobres, o Soul não.

c) Se “Soul” for lido como verbo (ser), conjugado pelo Presente do Indicativo, admite-se: “tenho um automóvel que é o novo Uno e não o veículo Soul da Kia, portanto, sou pobre”.

d) O designer do automóvel Soul é bem pago, pois fez um design considerado mais bonito que o do novo Uno.

e) O designer do automóvel novo Uno é mal pago, pois fez um design parecido com o do Soul, mas, menos sofisticado, direcionado para pobre.

Estas relações têm consistência somente se forem consideradas por um trajeto simbólico de leitura proveniente de um conhecimento de mundo que permita tais interpretações. Um conhecimento de mundo que permita saber que a aquisição (relação social de ter/não ter) de um automóvel Soul da Kia custa pelo menos o dobro de dinheiro equivalente a um modelo novo do Uno. Ora, esse conhecimento de mundo nada mais é que o reconhecimento da própria (con)vivência da cultura em que se está imerso. É, de certa forma, o estabelecimento do caráter social que configura essa cultura, configura esse (re)conhecimento de mundo. Se a imagem 01 nos diz que há uma diferença entre pobres e não-pobres através da relação entre ter ou não-ter um Soul Kia, esse dizer afirma, ainda que pelo caráter humorístico peculiar ao Desencannes, um caráter sócio-cultural que condiz diretamente ao modo de vida dos homens cuja sociedade produz, veicula e “consome os sentidos” deste signo/imagem.

Aqui chegamos ao ponto mais problemático de nossas observações, que é constatar as relações de desdobramento do modo de pensar incrementado pela Indústria cultural no início do século passado sobre um meio de comunicação muito mais complexo e interativo do que a televisão, o cinema ou o rádio. Relação que compreendemos como um desdobramento do modo de pensar e agir dos homens (enquanto caráter social) que, forçosamente orientado pela ideologia da classe social dominante, determina perfis de cultura [2] não só sobre cada indivíduo, mas, sobre toda a sociedade, constituindo-a a respeito do modo de vida social.

É evidente considerar a distinção entre as mídias (televisão, jornal, rádio, cinema) sobre as quais Adorno e Horkheimer conceituaram Indústria Cultural e, atualmente, o computador online. A televisão que apenas despeja em frente ao telespectador a voz de uma ideologia dominante se mostra potencialmente menos interativa do que o computador em que alguém, estando no Brasil, pode, em segundos, comprar uma passagem em Tókio ou realizar uma reunião com seus sócios no Canadá por Conferência Desktop. Dispondo de certo material (computador online) e alguns conhecimentos técnicos, qualquer indivíduo pode tornar de amplo alcance suas fotos, um vídeo por ele produzido, um texto, etc., ao invés de apenas votar por SMS a enquete solicitada pelo apresentador de TV. Contudo, mais do que diferenças dos meios materiais ou das técnicas (não por menos importantes) entre TV e internet, interessa-nos destacar os índices de valores que, acorrentados na linguagem, constituem o modo de pensar e de agir dos homens. Interessam-nos perceber, como sugerido por Adam Schaff, os estereótipos e sua influência sobre os atos humanos e sobre o caráter social do homem que instituem a realidade social pautada sobre a produção e o consumo de bens e de mercadorias - o modo capitalista de produção econômica.

É nesse sentido que julgamos haver o desdobramento do ideal articulado pela Indústria Cultural nas novas formas de comunicação como a internet, tendo em vista que esse ideal se baseia na “técnica de manejo dos homens” (ADORNO & HORKHEIMER, 1982, p.200) e tem com relação a estes um princípio básico que consiste em:

(...) lhe apresentar tanto as necessidades, como tais, que podem ser satisfeitas pela indústria cultural, quanto em, por outro lado, antecipadamente, organizar estas necessidades de modo que o consumidor a elas se prenda, sempre e tão só como eterno consumidor, como objeto da indústria cultural. Esta não apenas lhe enculca que no engano se encontra sua realização, como ainda lhe faz compreender que, de qualquer modo, deve-se contentar com o que é oferecido. (ADORNO & HORKHEIMER, 1982, p.179)

Não devemos ignorar, como bem sugere Olgária Matos (1993), as condições de produção e os fatores históricos que influenciaram os estudos críticos de Adorno, Horkheimer e outros autores da chamada Escola de Frankfurt. O ceticismo notório tinha motivação na ascensão do nazismo, na Segunda Guerra e no stalinismo, por exemplo, juntamente com a situação das revoluções/movimentos operários. Também não seria prudente desvencilhar do conceito de Indústria Cultural de Adorno e Horkheimer a influência que a empresa, a indústria e o comércio americano incidiam sobre as práticas da sociedade, no tempo ainda em que eles a constataram ao viver nos Estados Unidos. O que interessa ficar claro aqui é que não atribuímos à internet um mero mecanismo reprodutor da ideologia dominante da Indústria Cultural. Ela comporta ideologias matizadas, contrárias e, de certo modo, questionadoras a esse modo de pensar. O desdobramento que destacamos se dá justamente na situação em que mediante a um meio de comunicação mais possibilitador, mais “livre”, a produção de um bem cultural (as imagens aqui destacadas) é, ainda, sutilmente comparsa das leis ideológicas gerais do capitalismo na medida em que dita: “o novo modelo do Uno é um modelo pobre. Há um carro mais luxuoso, o Soul, que, este sim, deve ser almejado.”, ou ainda “não se satisfaça com o novo modelo pobre do Uno porque há o modelo rico da Kia e que, este sim, satisfaz.”. Em suma, na internet os meios são outros (mais avançados tecnologicamente), a interação entre indivíduos é maior e mais complexa e, no entanto, o fio ideológico-filosófico-impositivo da Indústria cultural que massifica e orienta um pensamento em prol do status dominante de uma classe social se apresenta, talvez, de modo mais artificioso do que uma propaganda explícita entre os trailers no cinema.

O que se desdobra da tela online é o caráter da filosofia do iluminismo que alimenta a Indústria cultural cujo “(...) objetivo não são os conceitos ou imagens nem a felicidade da contemplação, mas o método, a exploração do trabalho dos outros, o capital.” (ADORNO & HORKHEIMER, 1983, p.18). Desdobramento tal que incide esse caráter filosófico sobre a produção dos bens culturais, assim como sobre a produção-consumo das mercadorias, afetando diretamente o caráter social do homem por um processo de estereotipagem do pensar e do agir - de como se deve e não se deve viver, trabalhar, disciplinar-se, produzir, consumir. Esse desdobramento revela a denúncia de Adorno:

Os produtos da indústria cultural podem estar certos de serem jovialmente consumidos, mesmo em estado de distração. Mas cada um destes é um modelo do gigantesco mecanismo econômico que desde o início mantém tudo sob pressão tanto no trabalho, quanto no lazer que lhe é semelhante. (ADORNO & HORKHEIMER, 1982, p.165)

Por isso preferimos o termo “desdobramento”. Os produtos da indústria cultural que Adorno e Horkheimer criticam eram filmes, músicas, desenhos animados, propagandas, etc., mas, definimos tal desdobramento no sentido de que são deslocados os meios de circulação/manifestação desses produtos culturais (do telão do cinema para a tela do computador, por exemplo), mas esse deslocamento permanece, como um papel desdobrado ao meio, inteiramente em constituição com o todo desse papel. Ou seja, os signos são alterados, seus contextos são alterados, seus meios de aparecimento são alterados e, contudo, o índice expoente de valor ideológico que esses signos carregam rege mecanismos de poder favorecidos à lógica da relação com o modo econômico capitalista de existir, persistindo na estratificação de classes sociais e, consequentemente, na distinção de caracteres sociais.

Vejamos a imagem 02:

FIGURA 2 (http://www.desencannes.com.br - Caranga - Rodrigo Vieira)

Nesta imagem, a leitura que nos interessa é: “não é importante que seu automóvel seja velho (ainda mais o Fusca que é culturalmente estigmatizado) e esteja pago; o que importa é que existe uma oportunidade de possuir um automóvel não-velho/novo por meio de um financiamento pela empresa Losango”. E, o mais interessante, é que possuir um automóvel novo não condiz somente a ter/não-ter um automóvel novo, mas o sentido criado na equivalência entre “muito mais que crédito” e “muito mais que carro novo” remete a um estereótipo de caráter social que afirma: “quem tem um carro novo é bem-sucedido, bem visto socialmente - isso é importante; quem tem carro velho, apesar de estar pago, não é bem-sucedido - não é importante”.

Eis aqui, mais uma vez, o desdobramento da voz ideológica da Indústria Cultural que objetiva eliminar as diferenças e unificar o contato entre ideologia e economia da sociedade (é comportar-se de modo diferente quando se tem um automóvel velho e pago enquanto a ordem comum à maioria é ter um automóvel novo e financiado a juros). É, inclusive, pela voz ideológica enunciada nesse signo que se institui a relação de poder sobre uma luta que não é meramente simbólica ou enunciativa, mas, como vimos em Bakhtin e Marx, uma luta entre classes socialmente distintas pela relação com que mantêm tanto com os meios de produção econômica quanto com os produtos desses meios.

Dessa forma, à aparente brincadeira despropositada que as imagens do Desencannes se propõem enquanto “propaganda imaginária, absurda e sem compromisso”, notamos que, na circunstância de serem signos ideológicos por excelência, estas imagens não são propagandas absurdas ou meramente imaginárias como elas se descrevem pelo propósito de apenas divertir. Agindo como ponte de significados entre o locutor-produtor da imagem e o leitor-visualisador, elas carregam ideologicamente, ao mesmo instante em que condenam o que lhe é distinto, a denominação de como deve ser/agir o sujeito e seu caráter social em que ele:

(...) só se determina ainda como coisa, como elemento estatístico, como success ou failure. Sua medida é a autoconservação, a adaptação à objetividade bem ou mal-sucedida das suas funções, e o modelo imposto para esta adaptação. Todo o restante, ideia e criminalidade, experimenta a força do coletivo que tudo vigia, desde a sala de aula até o sindicato. (ADORNO & HORKHEIMER, 1983, p.46).

 

Conclusão

Mediante nossas observações, arriscamos concluir provisoriamente que o computador online não configura tipicamente um veículo de comunicação de massa, segundo a acepção própria de mass media, pela extensa complexidade que difere principalmente a televisão da internet. A ênfase dada à televisão se justifica porque, em comparação aos outros veículos como o jornal impresso, esta é mais presente nos recintos brasileiros - a um hospital público faltam seringas, mas não lhe é incomum uma televisão à recepção para entreter os pacientes que aguardam atendimento.

Certamente, a interação instantânea entre os internautas e a possibilidade de navegar e desenvolver conteúdos e divulgá-los (textos, imagens, fotografias, pequenos filmes, etc.) criam novos panoramas à existência e ao funcionamento dos signos, mostrando matizes ideológicas e permitindo-se ouvir outras vozes que não apenas a da classe social dominante. A cibercultura, como destaca Lévy, favorece a criação de comunidades virtuais que se formam a partir de propósitos comuns em divergência a outros propósitos e que podem constituir, de certo modo e questionável modéstia, resistência ao panóptico domesticador do capital.

O desdobramento que, por ora, permanece apenas sublinhado neste trabalho, tem efeito não apenas na extensão de veículo de mídia (de ordem mais técnica e material), mas, e mais importante, na ideologia do controle da sociedade; no manejo do corpo e do simbólico dos homens que, por meio da afirmação violenta de estereótipos, solidifica a cultura unitária desejada pela lógica do utilitarismo extremo do capitalismo em que até mesmo uma “imagem divertida e sem compromisso” é refém desse poder. Poder que não o percebemos de modo evidente e claro como se fosse uma simples tradução da esfera material para a esfera da língua. Poder que se institui por mecanismos paradoxalmente sutis e sagazes a cada enunciação do signo embebido ideologicamente; enunciações que surgem a nossos olhos como flechas lançadas ao ar por indivíduos socialmente distintos desde o ser até o ter. Flechas que não sabemos ao certo, mais adiante, a quem vai ferir.

 

Notas

* Mestrando em Letras pelo Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Letras da UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Brasil.

[1] Dowbor (1982) situa o Brasil contemporâneo em uma transição de elementos do feudalismo com o capitalismo, configurando uma coexistência entre esses dois modos de produção. Por isso, o termo aqui empregado “pré-capitalista” é por não considerar o Brasil plenamente capitalista tal como Marx esboçou no livro II de O Capital sobre a integração plena dos processos cíclicos do capital. Para Dowbor, os modos de produção no Brasil articulam elementos pré-capitalistas com elementos capitalistas.

[2] O conceito de cultura a que nos referimos condiz à definição dada por Schaff: “A totalidade dos produtos materiais e espirituais do homem em um período determinado e em uma determinada nação (cultura nacional).” (SCHAFF, 1995, p.72).

 

Referências bibliográficas

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——. (1983). Conceito de Iluminismo. In: Theodor. W. Adorno. Textos Escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1999. (Coleção Os Pensadores).

BAKHTIN, M. (Voloshinov). Marxismo e filosofia da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 4. ed. São Paulo: Hucitec, 1988.

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DOWBOR, Ladislau. A formação do capitalismo dependente no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1982.

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MARX, K. (1859). Para a crítica da economia política. São Paulo: Abril Cultural, 1982 (Os economistas).

MATOS, Olgária C. F. A Escola de Frankfurt: luzes e sombra do Iluminismo. São Paulo: Moderna, 1993. (Coleção Logos).

SCHAFF, Adam. A sociedade informática: as consequências sociais da segunda revolução industrial. Trad. Carlos E. J. Machado e Luiz A. Obojes. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.

http//www.desencannes.com.br, acesso em: 15/07/10.

 

Eder José dos Santos possui Licenciatura em Letras - Português/Inglês e respectivas literaturas pela Universidade Paranaense (2005) e Especialização em Língua, Literatura e Ensino pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2007). Atualmente é mestrando em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná na linha de pesquisa Interdiscurso: práticas culturais e ideologias, em que desenvolve uma pesquisa sobre a imagem virtual da internet e suas operações discursivas segundo teorias da Análise do Discurso de linha francesa. Servidor público desde março de 2004, atua no ensino de Educação e Informática em escolas municipais de Cascavel.

 

© Eder José dos Santos 2011

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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