O lugar de Otto Maria Carpeaux no campo da crítica

Mauro Souza Ventura

Universidade Estadual Paulista
UNESP (Bauru, SP, Brasil)


 

   
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Resumo: O artigo estuda a obra de Otto Maria Carpeaux no contexto da crítica literária brasileira nas décadas de 1940-1950. Partindo das formulações teóricas de Pierre Bourdieu sobre o conceito de campo, são estabelecidas reflexões sobre o lugar ocupado por Carpeaux em função das mudanças de paradigma ocorridas no campo da crítica e dos novos processos de legitimação daí decorrentes. Duas hipóteses são desenvolvidas neste estudo: a) a obra de Carpeaux sofreu os efeitos da falta de legitimidade de seus contemporâneos nas décadas de 1940-1950, o que pode ser observado, por exemplo, no tratamento periférico a ele conferido pelo campo das instâncias de difusão e consagração - leia-se mercado editorial. b) herdeiro de Álvaro Lins no Correio da Manhã, Carpeaux herda também um modelo de crítica que perde prestígio em função da influência crescente do New Criticism no país, que desloca o eixo de atuação da crítica do jornal para a universidade.
Palavras-chave: Crítica literária no Brasil; Campo literário; Otto Maria Carpeaux; New Criticism.

Abstract: The paper studies Otto Maria Carpeaux`s work in the context of Brazilian literary critic in the decades of 1940-1950. Starting from Pierre Bourdieu`s theoretical formulations about field concept, are set reflections concerning the place occupied by Carpeaux in the light of paradigm shifts occurred in the criticism field and new processes of legitimation resulting from this situation. Two hypotheses developed in this study are: a) Carpeaux`s work was affected by a lack of legitimacy of his contemporaries in the decades of 1940-1950, as can be seen, for example, in peripheral treating conferred on him by the field of diffusion and consecration instances - we can read, the editorial market. b) Carpeaux such as an Alvaro Lins`s heir in the Correio da Manha, also inherited a criticism model that lost prestige in the light of the New Criticism growing influence occurred in the country, which shifts the critical role from the newspaper to the university.
Keywords: Literary criticism in Brazil; Literary field; Otto Maria Carpeaux; New Criticism.

 

Ao longo de quase quatro décadas, entre 1941 e 1977 - datas, respectivamente, do primeiro e do último artigo publicado na imprensa brasileira --, o jornalista e crítico austríaco-brasileiro Otto Maria Carpeaux (1900-1978) exerceu aquilo que poderíamos chamar de crítica prática, constituída por centenas de textos publicados de forma contínua e em ritmo quase semanal. Seja pelos temas escolhidos, seja pela linguagem utilizada, a produção periódica de Carpeaux necessita ser estudada e discutida a partir de sua inserção no campo da crítica literária, que se constitui a partir de uma tensão permanente com o campo da difusão e, em específico, de um jornalismo cultural ainda em fase de consolidação no Brasil de meados do século 20.

De início, cabe demarcar a natureza desta produção impulsionada num primeiro instante por necessidades do momento em que foi escrita e orientada em função do público-leitor dos veículos para os quais escreveu, conforme se verá mais adiante.

A crítica praticada por Carpeaux no decorrer de sua carreira jornalística - ele próprio considerava-se como tal - apresenta aqueles princípios ordenadores que caracterizam as modalidades não acadêmicas de texto, quais sejam: nitidez argumentativa, interesse público, gancho factual. Além disso, tais produções costumam eleger como público-alvo o leitor não especializado e pressupõem, quase sempre, uma análise crítica e uma tomada de posição explícita, resultando assim numa visão global sobre os objetos estudados.

Uma das hipóteses que perpassa este estudo pode ser expressa da seguinte forma: a crítica literária de Otto Maria Carpeaux sofreu os efeitos da falta de legitimidade de seus contemporâneos nas décadas de 1940-1950, fato este que pode ser observado no tratamento periférico a ele conferido pelo campo das instâncias de consagração - leia-se mercado editorial --, assunto que será desenvolvido mais adiante. Antes, porém, de avançar nesta análise, convém deter-se no contexto de produção da crítica de Carpeaux.

Carpeaux e o campo da difusão

Otto Maria Carpeaux desempenhou, entre as décadas de 1940-70, papel destacado no processo de formação do leitor culto, como o demonstram a intensa atividade jornalística, a produção de obras de caráter de divulgação, como História da Literatura Ocidental, publicada entre 1959 e 1966, Uma Nova História da Música, de 1958 e A Literatura Alemã, de 1964, além de sua participação no projeto das enciclopédias Barsa e Mirador.

Durante quase toda a década de 1940, Carpeaux esteve envolvido na elaboração de seu projeto mais ambicioso, que foi a História da Literatura Ocidental. Creio que nenhum outro livro consumiu tanto as energias físicas e emocionais de seu autor. Contratado pela Casa do Estudante do Brasil para escrever a obra, Carpeaux finalizou os últimos capítulos em novembro de 1945. Entregou ao editor cerca de quatro mil páginas datilografadas e, segundo ele, criteriosamente documentadas. [1] Mas os originais ficaram parados, pois a Casa do Estudante do Brasil, órgão do Ministério da Educação, não possuía recursos para publicar a obra de Carpeaux. Como se não bastasse, o contrato com o editor estipulava uma multa pesada em caso de desistência do autor, e isso tornou inviável a publicação da obra por outra casa editorial. Quase dois anos depois, Carpeaux ainda vivia esse impasse. Em carta a Gilberto Freyre, datada de 31 de março de 1947, ele se queixa do editor, Arquimedes, que permanecia irredutível [2]. Escreve Carpeaux:

Esgotei-me com esse trabalho, entregando os últimos capítulos em novembro de 1945. Não demorou a revelação desagradável: a C.E.B. é financeiramente incapaz de editar a obra. Naquele tempo, vários editores quiseram entrar no negócio, mas nosso amigo Arquimedes, possesso de ambição, não me largou, insistindo no contrato que não determina prazo de edição e me impõe no caso da rescisão da minha parte uma forte indenização. (Carpeaux, 1947).

E assim foi. A obra somente seria publicada entre os anos 1959 e 1966, e pelas edições O Cruzeiro, dirigida por Herberto Sales. Mas as agruras de Carpeaux com este livro não pararam. Com tiragem imprecisa e diversos erros tipográficos, esta primeira edição foi revista e ampliada pelo crítico nos anos seguintes, para ser publicada a partir de 1978, pela pequena Alhambra, de Joaquim Campelo Marques.

Mas este não foi o único livro de Carpeaux a enfrentar problemas de natureza editorial. A Pequena Bibliografia Crítica da Literatura Brasileira, publicada em 1952 pelo Serviço de Documentação do MEC, chegou aos leitores com graves falhas de revisão. Tanto que foi motivo de comentário de Álvaro Lins: “os erros de revisão desta Bibliografia saltam aos olhos de qualquer um, e por todos os lados, até no índice onomástico, onde a página indicada com precisão numérica para um Autor não é a que lhe corresponde de fato no texto”. (Lins, 1952, p.51).

Os incidentes editoriais envolvendo esses dois livros podem contribuir para uma reflexão sobre o interesse pela obra daquele que figura como um dos mais importantes críticos do país e fornecer dados para reavaliar o lugar ocupado por uma obra de dimensões enciclopédicas como esta, assim como aferir sua importância no processo de formação do leitor e do próprio campo literário do país.

Cabe lembrar que, naquela época, já tínhamos no Brasil grandes casas editoriais, como a José Olympio, no Rio. Por que então a obra de Carpeaux foi publicada pela revista O Cruzeiro? De acordo com Bourdieu (2007), a posição ocupada por um autor em seu tempo está ligada à relação que mantém com as instâncias de difusão.

A forma das relações que as diferentes categorias de produtores de bens simbólicos mantêm com os demais produtores, com as diferentes significações disponíveis em um dado estado do campo cultural e, ademais, com sua própria obra, depende diretamente da posição que ocupam no interior do sistema de produção e circulação de bens simbólicos e, ao mesmo tempo, da posição que ocupam na hierarquia propriamente cultural dos graus de consagração. (Bourdieu, 2007, p.154).

Em suma, não se pode ignorar a posição que um determinado agente ocupa na hierarquia da legitimidade cultural, posição esta que depende dos signos de reconhecimento ou de exclusão emitidos pelas instâncias de consagração. No jogo entre agentes pretendentes e dominantes no campo literário, pode-se dizer que Carpeaux não foi um autor legitimado por essas instâncias, pelo menos no período que estamos analisando. Em 2008 foi lançada uma terceira edição de História da Literatura Ocidental, pela editora do Senado Federal. Ainda que não se possa deixar de louvar a iniciativa das Edições do Senado Federal, é preciso considerar que as edições dessa obra ao longo da história foram feitas por editoras pequenas ou situadas à margem do sistema editorial brasileiro (é o caso de O Cruzeiro e Alhambra) e que, por certo, não correspondem à imagem que o crítico obteve na posteridade. Em outras palavras, Carpeaux foi um autor de pouca legitimidade junto ao campo da difusão - leia-se mercado editorial - e isto pode ser comprovado pela história das edições de sua obra.

É evidente que a construção de uma reputação não se faz pela ação exclusiva deste ou daquele agente, desta ou daquela instituição, deste ou daquele veículo. Trata-se, como argumenta Bourdieu, de um sistema de relações objetivas, que inclui não apenas a concorrência entre agentes, cujos papéis estão associados a valores culturais diversos, mas também ao próprio conflito entre agentes que ocupam posições diferentes no processo. O que determina a fortuna de uma obra é, assim, “o campo da produção como sistema das relações objetivas entre esses agentes ou instituições e espaço das lutas pelo monopólio do poder de consagração em que, continuamente, se engendram o valor das obras e a crença neste valor”. (Bourdieu, 2008, p.25)

Não obstante isso, a influência de Carpeaux é considerada um fator de relevância nas dinâmicas do campo no período em que estamos analisando. Como revela Junqueira (2005), que conviveu com Carpeaux nos anos 1950-60 e de quem se tornou amigo, a influência do crítico foi decisiva na formação de inúmeros futuros intelectuais brasileiros a partir da segunda metade do século XX. Junqueira recorda que, em 1956, já tendo abandonado o curso de Medicina para se dedicar à literatura, tomou contato com os artigos de Origens e fins, a segunda coletânea de Carpeaux publicada no país. Escreve Junqueira:

O fascínio pelo pensamento de Carpeaux estava obviamente vinculado a um processo de distensão e enriquecimento que cada um de nós viera acumulando ao longo dos anos do ponto de vista humanístico e cultural. Ele não alterou o rumo de nossas vidas, mas sua lição contribuiu de maneira notável para o nosso amadurecimento como intelectuais. (Junqueira, 2005, p.24).

Ao mesmo tempo em que contribuiu para a formação do campo da crítica literária no país, pois tornou-se referência na formação de muitos dos intelectuais hoje em atividade [3], Carpeaux empenhou-se para imprimir uma marca de profissionalismo (leia-se trabalho remunerado para garantir a sobrevivência) e de especialização a um ofício que até então era exercido por bacharéis e diletantes de todos os tipos.

Mudança de paradigma no campo da crítica

No Brasil do início da década de 1940, a crítica literária apresentava duas características bastante definidas: ocupava as colunas fixas e rodapés dos jornais e de algumas revistas e era praticada em geral por profissionais liberais, os chamados homens de letras, que, formados muitas vezes no autodidatismo, escreviam em tom de comentário, num gênero bastante próximo ao da crônica. Ora, a formação de Carpeaux é bastante eclética, pois incluía cursos de Físico-Química na Áustria, Sociologia e Política em Paris e Berlim e Literatura Comparada em Nápoles. Além disso, quando chegou ao Brasil já era autor de vários trabalhos ensaísticos, entre os quais se destacam Wege nach Rom [Caminhos para Roma] e Österreichs europäische Sendung [A missão européia da Áustria], além de artigos publicados em revistas européias. Se, apesar desta formação, o espaço ocupado por Carpeaux foi sempre os jornais e não a universidade, ele o fez tanto por afinidade como por necessidade. Carpeaux parecia possuir uma vocação natural para trabalhar na imprensa. E isso costuma direcionar as habilidades individuais.

Ocorre que, neste momento, o campo da crítica no Brasil passa por uma mudança de paradigma, com profundas transformações, seja em seu funcionamento interno, seja nas relações de poder entre os agentes. Os dois aspectos estão ligados ao processo de institucionalização universitária, que irá deslocar o eixo de atuação da crítica para a academia. A crítica literária de meados dos anos 1940 era obra de indivíduos que encaravam a atividade mais como uma missão do que uma profissão, e cujos principais expoentes eram Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima, Sérgio Milliet, Lúcia Miguel Pereira e Sérgio Buarque de Holanda, além do próprio Otto Maria Carpeaux (A cinza do purgatório, de 1942 e Origens e fins, de 1943) e do então novato Antonio Candido, com Brigada ligeira, de 1945.

Esse processo ocorreu a partir da criação dos cursos de Letras no país e se intensificou na segunda metade do século 20, com a formação de um grupo de profissionais oriundos do incipiente meio universitário, que passam a ser legitimados enquanto críticos em suas intervenções nos jornais. Deste modo, os críticos legítimos serão aqueles que, possuindo uma base de atuação na universidade, passam a defender uma atitude crítica distinta daquela que era exercida pelos críticos “impressionistas”.

A partir do início da década de 1950, Afrânio Coutinho passou a fazer verdadeira campanha em favor da crítica enquanto disciplina científica, amparado na tese de que a verdadeira crítica literária tinha como ponto de apoio a cátedra e não mais o jornalismo. Não esqueçamos que o momento refletia a influência poderosa do New Criticism, de quem Coutinho será o porta-voz no país. Como explica Vagner Camilo, a perspectiva de Coutinho pretendia ser “uma forma de combate à conduta antiprofissional e imoral de nossa elite literária, que monopolizava os periódicos e rodapés literários”. (Camilo, 2008, p.120-121).

É curioso constatar que a campanha de Coutinho pela renovação da crítica foi feita por meio de artigos publicados na imprensa, o que indica que o veículo de difusão permanecia inalterado; o que mudava eram os agentes. Sussekind descreve com propriedade os protagonistas desta luta travada no campo literário.

De um lado, os antigos ‘homens de letras’, que se crêem a ‘consciência de todos’, defensores do impressionismo, do autodidatismo, da review como exibição de estilo, ‘aventura da personalidade. De outro, uma geração de críticos formados pelas faculdades de filosofia do Rio de Janeiro e de São Paulo, criadas respectivamente em 1938 e em 1934 e interessados na especialização, na crítica ao personalismo, na pesquisa acadêmica. (Sussekind, 2003, p.17).

Estamos diante de um embate que coloca em cena dois modelos distintos de atitude crítica, assim como dois critérios de validade para o julgamento da obra literária. Para os objetivos deste artigo, interessa saber qual é a posição ocupada por Carpeaux nesse cenário e quais as implicações resultantes - do ponto de vista da legitimação - para a recepção de sua própria obra crítica. Nunca será demais lembrar que, como explica Bourdieu, a história de um determinado campo é construída pela luta dos agentes pelo “monopólio da imposição das categorias de percepção e apreciação legítimas.” (Bourdieu, 2008, p. 88).

Com efeito, no momento em que Carpeaux inicia sua produção no Brasil, o campo da crítica literária atravessa um período de questionamento com relação à sua própria natureza e função. Uma fase de transição que passa da crítica não especializada, exercida então por profissionais de diversas áreas que escrevem para os jornais, ao surgimento dos primeiros críticos oriundos da universidade e ligados ao ensino de literatura. Mais uma vez recorremos a Sussekind, que descreve com propriedade esta passagem do crítico-cronista ao crítico-scholar:

“Há, então, dois modelos bem diversos de críticos em dispusta, que se encontram momentaneamente lado a lado nas páginas da imprensa diária. O que se inicia é uma mudança nos critérios de validação daqueles que exercem a crítica literária. A “carteira de habilitação’ em meados dos anos 1940 não é mais a mesma das primeiras décadas deste século. E parece prever um tipo de intelectual cuja figura não cabe mais nas funções, até então supervalorizadas, do jornalista, do crítico-cronista.” (Sussekind, 2003, p.17-18).

Ora, os novos qualificativos para o exercício da crítica passam, pois, pela órbita da cátedra, ou do ensino de literatura. Se o espaço de publicação permanece o mesmo, ou seja, o jornal e a revista de circulação ampla, o requisito se modifica; o lugar de fala do novo crítico de rodapé será o do professor, e não mais do diletante-cronista-jornalista-homem-de-letras. Qual será o lugar de Carpeaux nesse movimento? Herdeiro de Álvaro Lins no Correio da Manhã, ele herda também um modelo de crítica que perde prestígio em função do surgimento de críticos “especialistas”. Ao crítico, portanto, não bastará ocupar o rodapé semanal - e vários, incluindo Carpeaux, continuarão a fazê-lo. A legitimação no campo da crítica virá cada vez mais da posição de determinado agente em relação à instância acadêmica.

Ao mesmo tempo, pode-se argumentar que a crítica de Carpeaux situa-se na confluência entre os dois modelos acima citados, apresentando característica de ambos. A própria biografia de Carpeaux o coloca a meio caminho entre o homem de letras não especializado e o crítico com formação específica em ciências humanas (já que teria cursado Filosofia e Sociologia em Paris e Literatura Comparada em Nápoles). Além do mais, Carpeaux inicia sua produção teórica em 1934, com Wege nach Rom [Caminhos para Roma], livro que, seja pela erudição, seja pelo tratamento formal dos temas, é uma obra marcadamente acadêmica, no contexto da tradição européia.

Por outro lado, razões de sobrevivência o levaram ao exercício da crítica profissional e a escrever com regularidade na imprensa. Nesse ponto poderíamos situá-lo na linhagem da crítica literária praticada nos rodapés dos jornais e vinculada a todo um conjunto de valores que o New Criticism procura estirpar da cultura brasileira.

No entanto, se foi por uma contingência que Carpeaux tornou-se crítico literário ligado ao jornalismo, sua formação humanística e o consistente trabalho dos conceitos que se depreende de sua prosa permitem-nos conjecturar que, fossem outras as circunstâncias, ele talvez tivesse produzido uma obra de natureza teórica (com ou sem vínculos acadêmicos), projeto este que o destino se encarregou de abortar. O próprio Carpeaux tinha consciência disso e não hesitava em afirmar que o jornalismo era apenas um meio de vida. Seja como for, a trajetória de Carpeaux o conduziu para o jornalismo e tanto sua obra quanto seu estilo refletem as contingências e marcas desta atividade. Não podemos esquecer também que, mesmo na Áustria, Carpeaux já trabalhava como jornalista, escrevendo sobre política e cultura.

Com efeito, em seus inúmeros artigos é possível encontrar exemplos tanto da antiga crítica literária como da análise especializada -- apoiada em citações, notas de rodapé e vasta bibliografia --, que se institucionaliza nas universidades brasileiras a partir dos anos 1950-60, mas que já era prática comum em seu país de origem. Não seria, portanto, exagero afirmar que o percurso ensaístico de Carpeaux desloca-se entre os dois pólos da crítica enquanto gênero: do impressionismo dos homens de letras à abordagem teórica que será a marca da crítica acadêmica que se institui neste período.

Já no plano epistemológico, as interpretações de Otto Maria Carpeaux -- quase sempre intuitivas, impressionistas, ao mesmo tempo em que fortemente armadas de erudição -- deixam a lição de que as armas da crítica precisam ser forjadas apenas e na medida em que a obra as solicita. Contrário à aplicação mecânica e instrumental do método crítico à obra, Carpeaux percorre um movimento que pode ser traduzido pelo seguinte axioma: é a obra literária que funda o método. É ela que o elege e não o contrário. Nesse sentido, fica evidente sua oposição ao New Criticism, cujos preceitos cientificistas ele não deixa de ironizar:

Empregam-se métodos, criados em situações literárias diferentes, para explicar onde não há nada para explicar. Com impaciência estou esperando que um crítico da novíssima geração dedique trabalho de análise estilística às imagens da vida doméstica nos romances da Sra. Leandro Dupre ou à freqüência de adjetivos astronômicos na poesia de Petrarca Maranhão. Antigamente não foi assim. Os nossos críticos antigos nem sequer sabiam o que é método. Num sentido muito diferente, Augusto Meyer também ‘não tem método’. Emprega ora este, ora aquele processo de interpretação, obedecendo só e exclusivamente à natureza da obra que pretende interpretar; o método estilístico, o método sociológico (nos seus estudos de literatura gaúcha) e last but not least - o método psicológico. (Carpeaux, 1999, p.852).

Consciente das limitações e insuficiências inerentes a todo método quando se defronta com seu objeto, Carpeaux se movimenta, sempre, da parte para o todo e vice-versa. Ao mesmo tempo, articula diferentes disciplinas teóricas, sem sacrificar ou submeter a obra literária a nenhuma delas. História, sociologia, psicologia, filologia, biografia e poética convivem lado a lado em suas leituras e são utilizadas pelo intérprete na medida de sua necessidade. Cada obra solicita um determinado tipo de abordagem e o resultado é uma crítica que se mantém eqüidistante de linhas, movimentos ou tendências.

A crítica de Carpeaux remete à atuação de um sujeito dotado de exuberante arsenal crítico e metodológico, disposto e capaz de mobilizar os mais diversos recursos do conhecimento em favor da exegese literária. Carpeaux parece confirmar aquele ideal de intérprete que, sabendo que não se é um bom crítico literário sendo apenas crítico literário, não hesita em transpor as fronteiras de sua área para invadir, resolutamente, o quintal dos outros. Assim, uma das questões suscitadas pelo contato com a obra crítica de Carpeaux diz respeito à existência ou não de limites ou de autonomia para o campo da crítica. O conceito de campo designa um espaço regido por leis próprias e dotado de relativa autonomia. No caso do campo da crítica, cabe indagar acerca do grau de autonomia que esta pode manter em relação aos campos do jornalismo e das letras. A questão do método não está imune a esta dinâmica.

Nesse sentido, não se pode classificar o método crítico de Carpeaux na mesma linhagem de Afrânio Coutinho, como o faz, por exemplo, Miguel Sanchez Neto. “As concepções de Carpeaux faziam eco às de Afrânio Coutinho, que vinha defendendo a nova crítica, de matriz universitária”, escreve. (Neto, 2005, p.16). Para sustentar a hipótese de que Carpeaux teria endossado o movimento contra os homens de letras, Sanches Neto cita trecho do artigo em que o crítico austríaco-brasileiro enumera os requisitos exigidos ao exercício da crítica. “O crescimento do poder das faculdades de letras dar-se-á na esteira de ideias como a de Carpeaux”, escreve Sanches Neto, esquecendo-se, no entanto, de que o pressuposto fundamental do crítico, para Carpeaux, é o gosto. No mesmo parágrafo do artigo citado por Sanches Neto está a seguinte passagem, que anula a hipótese de uma sintonia de Carpeaux com o New Criticism. “E para tanto não basta toda a ciência literária do mundo, se não houver a colaboração daquilo que um espírito tão científico como Croce francamente admite: o gosto”. (Carpeaux, 1999, p. 849).

Mas é a passagem que abre esse mesmo artigo que fornece elementos para situar o posicionamento de Carpeaux em relação à crítica: “Antigamente tivemos muitos críticos sem teoria alguma. Agora temos muita teoria, uma floresta tão densa que ninguém mais consegue distinguir as árvores.” (Carpeaux, 1999, p.848).

Para compreender o significado de tal posicionamento, é preciso ter em mente que os textos de Carpeaux publicados na imprensa tinham como destinatário um público leitor dotado de certa cultura literária, que legitimava as posições assumidas pela crítica. Também é preciso lembrar que tal modalidade de escrita costuma despertar a “desconfiança de profissionais que baseiam sua prática apenas na rotina do método”. (Sarlo, 2007, p.15). Trata-se, com efeito, de uma atividade cuja função é servir de mediação entre o autor e o público.

Exemplar nesse sentido foi o papel de Carpeaux enquanto intermediário cultural, que, desde o início dos anos 1940, empenhou-se na divulgação e na explicação da obra de autores até então praticamente desconhecidos entre nós, como Lichtenberg e Jacobsen, Hofmannsthal e Conrad, Alfieri e Verga, Burckhardt e Vico (aliás, duas de suas grandes influências). Isso sem falar em Kafka, de quem ele foi um dos primeiros comentadores em língua portuguesa. Em “Fragmentos sobre Kafka”, publicado em julho de 1946 em O Jornal, Carpeaux relembra, “não sem certo orgulho”, ter sido ele o autor do primeiro artigo que se publicou sobre Kafka no Brasil. Trata-se de “Franz Kafka e o mundo invisível”, publicado em 1942 em A cinza do purgatório.

Como se pode constatar, a influência exercida por Carpeaux no então pequeno campo literário brasileiro foi marcante, a começar pelo ineditismo e a originalidade de muitas de suas interpretações. A formação humanística consistente e a vocação natural para o jornalismo o transformaram num de nossos primeiros e mais significativos mediadores culturais, atuando, ainda que de modo difuso, na formação dos leitores e na consolidação de uma cultura literária que até então seguia de mãos dadas com a prática de um jornalismo de alto nível.

 

Notas:

[1] Em 1943, na folha de rosto da primeira edição de Origens e Fins há uma relação dos lançamentos previstos pela editora, onde está anunciada a obra A literatura do Ocidente (3 vol.) de Carpeaux.

[2] Arquimedes de Melo Neto, então editor da Livraria-Editora Casa do Estudante do Brasil.

[3] Também o crítico Alfredo Bosi refere-se a Carpeaux como uma de suas leituras fundamentais de juventude: “Quando, por volta de 1950, comecei a me interessar por literatura, descobri, encantado, nas páginas do Diário de São Paulo, um mundo absolutamente novo para o ginasiano de treze anos. Era o mundo dos homens e dos livros trabalhados pela leitura de Otto Maria Carpeaux em artigos cheios de verve, poesia e paixão. Posso dizer que, durante anos a fio, não bebi de outra fonte em matéria de crítica literária”. (Bosi, 1992, p.9).

 

Referências bibliográficas

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SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. Trad. Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras; Belo Horizonte: UFMG, 2007.

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Mauro Souza Ventura é Doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), crítico literário e professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Midiática da Universidade Estadual Paulista (UNESP/campus de Bauru/SP, Brasil). É autor de De Karpfen a Carpeaux - Formação política e interpretação literária na obra do crítico austríaco-brasileiro (Rio de Janeiro: Topbooks, 2002).

 

© Mauro Souza Ventura 2011

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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