As representações do Nordeste em "A triste partida" de Luiz Gonzaga

Marcos Paulo Santa Rosa Matos

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais - Ages
Paripiranga, Bahia, Brasil
mp.srmatos@hotmail.com


 

   
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Resumo: o presente artigo se propõe analisar a música “A triste partida” de Luiz Gonzaga do Nascimento sob o prisma da representação ideológica do Nordeste Brasileiro, procurando mostrar a via discursiva de afirmação e apologia da identidade nordestina através da análise lingüístico-literária e do estruturalismo antropológico.
Palavras-chave: Nordeste; Luiz Gonzaga; Identidade.

Resumen: este artículo tiene como objetivo analizar la canción "El triste partida" de Luiz Gonzaga do Nascimento a través del prisma de la representación ideológica del nordeste brasileño, tratando de mostrar los medios discursivos de afirmación y reivindicación de la identidad del Nordeste mediante el examen de lingüística y literatura, y del estructuralismo antropológico.
Palabras clave: Nordeste; Luiz Gonzaga; Identidad.

 

Matéria-prima
Tudo temos de primeira, sim
Valor humano
Gente honesta e ordeira também
(Luiz Gonzaga)

 

1 INTRODUÇÃO

Objetivamos, neste trabalho, mostrar como os elementos discursivos da representação simbólica do Nordeste na obra “A triste partida” de Luiz Gonzaga torna-se uma metanarrativa e uma apologia do ser nordestino. Ou seja, esclarecer de que modo Luiz Gonzaga, como representante e defensor do Nordeste, procura, na obra analisada, por um jogo de simbolizações estabelecer a imagem de um Nordeste uno e ideal, motivo de orgulho e de engajamento histórico para os sujeitos que dele fazem parte.

Para tanto, inicialmente proceder-se-á uma contextualização do autor e de sua obra, como justificativa histórica da nordestinidade por ele assumida e defendida, e, seguidamente, uma análise lingüístico-literária e cultural-ideológica dos discursos textualizados na música analisada.

 

2 “A TRISTE PARTIDA” E O LEGADO GONZAGUENSE

A obra de Luiz Gonzaga do Nascimento, o “Rei do Baião”, é emblemática no que diz respeito à identidade nordestina. Ele é o grande nome da música popular dessa região, e não somente dela, ele representa e encarna aquilo que o povo nordestino sente e declara como sendo sua cultura, seu modo de vida, suas experiências existenciais, sua luta constante contra a fome, a seca e a opressão.

Em suas canções, Luiz Gonzaga procurava imitar a língua do povo, de seu povo, para melhor poder lhes falar, bem como uma anamnese de suas origens e do universo que ele ajudou a consagrar como uma fonte de poesia, de beleza, de luta, de coragem e resistência.

Luiz cantou o sertão não apenas enquanto temática, mas sobretudo como linguagem. Ele incorporou e encarnou o homem nordestino, com suas vestimentas, seus valores, seus sonhos, e sobretudo sua forma de expressar-se, e fez disso cartão de visita e emblema de sua obra artística.

O alcance de sua produção, mais do que sua pessoa, fazem daquilo que ele entoou verdadeiro catecismo do modus essendi do Nordeste do Brasil. Elba Ramalho canta, numa apologia à “pátria nordestina” que uma de suas músicas seria o Hino Nacional:

Já que existe no sul esse conceito / Que o nordeste é ruim, seco e ingrato / Já que existe a separação de fato / É preciso torná-la de direito / Quando um dia qualquer isso for feito / Todos dois vão lucrar imensamente / Começando uma vida diferente

De que a gente até hoje tem vivido / Imagina o Brasil ser dividido / E o nordeste ficar independente / [...] / O idioma ia ser nordestinense / A bandeira de renda cearense / “Asa Branca” era o hino nacional [2]

A canção Asa Branca possui um destaque especial porque, de autoria da dupla Luis Gonzaga e Humberto Teixeira, composta em 3 de março de 1947, foi cantada pelo próprio Luis Gonzaga e posteriormente por vários artistas, entre eles Lulu Santos, Fagner, Caetano Veloso, Elis Regina, Eduardo Araújo, Agnaldo Rayol, Paulo Diniz, Tom Zé, Chitãozinho e Xororó e Ney Matogrosso, Badi Assad, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Luiz Bordon, Demis Roussos e Raul Seixas [3], entre outros. Ela foi eleita pela Academia Brasileira de Letras em 1997 como a segunda canção brasileira mais marcante do século XX, empatada com Carinhoso, o choro que Pixinguinha compôs em 1917, e seguida apenas de Aquarela do Brasil, composta por Ari Barroso em 1939. O sucesso e a permanência dessa canção, que vendeu um milhão de copias logo nos primeiros anos de sua gravação, são incontestes.

O que é idiossincrático em Luiz é que ele não apenas interpretou artisticamente o universo cultural nordestino, uma vez que muitos outros o fizeram, mas também porque assumiu a linguagem estigmatizada do nordestino, transformando o estereotipo em emblema, em bandeira de identidade, orgulho de ser nordestino e de falar “nordestinês”.

É a partir dessa contestação que surge o problema norteador desse estudo: como Luiz transformou o cantar o Nordeste no definir o Nordeste, sob uma perspectiva de narrativa da identidade e defesa da cultura regional. Escolhemos para isso a música A triste partida [4] por motivações de ordem afetiva, encontradas no próprio Luiz, pois ela afirmar ser essa sua canção preferida (PIMENTEL, 2007: 22).

A triste partida apareceu pela primeira em um disco de mesmo nome, vez em 1964:

[...] uma época não muito boa para Gonzaga, uma vez que, com o surgimento da Bossa Nova e depois da Jovem Guarda, as emissoras de rádio das capitais e das grandes cidades brasileiras deixaram de tocar as suas músicas. Até nas grandes cidades nordestinas como Caruaru, Campina Grande e Feira de Santana, Luiz só era tocado em programas regionais que buscavam a audiência do homem do campo.

Luiz Gonzaga andava muito triste e achava que tinha chegado o momento de encerrar a carreira. A capa desse disco é emblemática, pois só traz a sua sanfona branca e um chapéu de couro. Ele, que sempre aparecia nas alegres capas de seus discos, desta vez ficou ausente. Mais ou menos um ano antes, passeando pela feira de Campina Grande, viu um violeiro cantando uma toada, que é o lamento sertanejo em forma de gênero musical. Aproximou-se e perguntou: “Essa música é sua?”. Ouviu o seguinte: “Não, senhor, é do poeta Patativa do Assaré, lá do Ceará”. Patativa que, se vivo fosse, teria completado cem anos em março de 2009.

Gonzaga sabia onde encontrar Patativa e assim, depois de duas semanas, lá na feira do Crato, conversou com o poeta. [...]

Luiz sabia da força daquela música e resolveu incluí-la no seu próximo LP, o qual pensava ser de despedida, dando somente os devidos créditos ao seu autor, poeta de primeiríssima qualidade. E a esta música foram se juntando outras jóias do cancioneiro nordestino. (ABÍLIO NETO, 2009)

Para procedermos a análise, lançaremos mão da estilística e do estruturalismo como métodos de análise da obra em foco. Nosso olhar se deterá sobre as imagens que compõe a produção, numa tentativa de, olhando as entrelinhas do texto, enxergar o olhar atento e a voz firme de um cantador que fez de seu próprio corpo um estandarte do Nordeste, e de suas músicas um parlatório para seu povo. Um cantador que, partindo de um Nordeste como condição inexorável de existência, transformou-o num grande projeto de identificação, ao mesmo tempo discurso de esperança e edito de luta.

 

3 O NORDESTE EM “A TRISTE PARTIDA”

Toda a produção de Luiz Gonzaga se baseia numa escolha de um espaço narrativo e poético primordial, que permanece inalterado em toda a sua obra: uma região do Brasil assolada por uma série de hostilidades naturais e de desigualdades sociais, políticas e econômicas, e que encontra na religiosidade um reduto de fé e de esperança na possibilidade de transformar a história.

Quando temos acesso às músicas de Luiz a primeira coisa que nos chama atenção é a adoção da “linguagem do Nordeste” como a língua por meio da qual ele fala ao Brasil e ao mundo inteiro: Luiz não toma para si um português estrangeiro, para poder ser aceito e bem entendido, ao invés, submete seu interlocutor à adoção de uma língua muitas vezes estereotipada e desvalorizada por representar a decadência e o subdesenvolvimento do povo que a produz e sustenta. Diz-nos Pimentel:

Oiei? Quá? Vortá? Prantação? Muita gente estranha, mas esses versos foram escritos e publicados assim mesmo, intencionalmente. Reproduzem a linguagem popular do homem da roça, mostram a diversidade lingüística da região (PIMENTEL, 2007: 22)

Isso significa que, sendo consciente, Luiz Gonzaga lança mão de variáveis populares tendo em mente o juízo social do prestígio lingüístico e da estigmatização. Quando isso ocorre, segundo Tarallo (2004: 50-54), o falante opta por usar a variação por ele mais valorizada, que - em última análise - refere-se à valorização do lugar social dessa valorização.

Sob essa ótica, o uso das variantes típicas dos falares nordestinos não é somente consciente, mas intencional. Ao valorizar a linguagem nordestina, Luiz procura valorizar o “ser nordestino” em sua totalidade. Isso porque, conforme diz-nos Bakhtin, o signo linguístico, as palavras - e os seus significantes - possuem um valor de relação social, uma vez que elas interagem com o contexto em que estão inseridas, ou seja, há um entonação pragmática e ideológica no uso das palavras (SANTOS, 2009).

Esse “ser nordestino”, entenda-se, é uma construção histórica que gerou no consciente coletivo nacional um bloco monolítico e homogêneo chamado “Nordeste” baseado nas categorias da seca, do retirante, do cangaço e do beato. Ou seja, o Nordeste é pensado em termos de flagelo, revolta e religiosidade. A invenção do Nordeste, segundo Albuquerque Jr. (2007) se deve às elites políticas dessa região, que se valeram do discurso da seca para atrair investimentos federais, a partir da falência da economia açucareira no final do século XIX. um segundo grupo criador dessa identidade nordestina é constituído pelos imigrantes dessa região, que se estabeleceram no Sul e Sudeste ao longo do século XX, muitas vezes privados de seus direitos mais fundamentais, que se encontram homogeneizados em sua diversidade, devido ao olhar da estranheza e à força da opressão, e encarnam em sua cultura e em seu modo de ser o mito do “nordestino cabra-da-peste”, valente, honrado, destemido e religioso, mas também agregado, vassalo, submisso e acrítico em relação à sua própria condição. É o Nordeste emoldurado pelo Mito da Necessidade (ALBUQUERQUE JR., 2007: 123).

O próprio Luiz experimentou a condição de imigrante nordestino no Rio de Janeiro e foi justamente por seu estilo nordestino de ser, caracterizar-se e comportar-se que passou a ser conhecido, contratado e admirado como músico, conquistando fama nacional. Albuquerque Jr. (2007: 120) afirma que Luis Gonzaga vai surgir, na Rádio Nacional, como o representante da identidade musical nordestina, ele irá inventar uma roupa que representaria esta nordestinidade ao usar a indumentária normalmente usada pelo vaqueiro e um chapéu de cangaceiro, além de uma sandália de couro conhecida como sandália de rabicho. Ele sofreu preconceito no início de sua carreira por ser nordestino e disso não envergonhar-se, mas justamente por seu sotaque e sua forma anasalada de fala, pelas próprias roupas que escolhera, seu talento, a qualidade da música que interpretava e o acerto de muitas estratégias adotadas para a promoção, como fazer shows pelo interior da região patrocinado por empresas como a Colírios Moura Brasil ou a Shell, Luiz Gonzaga tornou-se um ídolo daquelas populações nordestinas que viviam nas grandes cidades do Sul e que sentiam enorme saudade dos lugares de onde haviam saído, tema privilegiado de suas músicas, onde o sertão aparecia idealizado e este desejo de voltar era permanentemente repetido.

3.1 O Nordeste linguístico

Nessa construção ideológica do Nordeste está presente o conceito e a ideia de nordestinês, um sotaque tão explorado pelas novelas e programas de televisão, caracterizado como o falar nordestino, mas que não passa de uma virtualidade, pois o Nordeste não é só uma região extensa e diversa, mas é um espaço de multiculturalismo e multilinguismo, onde a homogeneidade é tão insustentável quanto à homogeneidade brasileira. Em outras palavras: a revalorização do Nordeste começa de onde o nordestino recebe o primeiro olhar de desaprovação e de riso, na maneira como ele se expressa para expressar seu mundo. Sobre isso, diz-nos Bagno:

É um verdadeiro acinte aos direitos humanos, por exemplo, o modo como a fala nordestina é retratada nas novelas de televisão, principalmente da Rede Globo. Todo personagem de origem nordestina é, sem exceção, um tipo grotesco, rústico, atrasado, criado para provocar o riso, o escárnio e o deboche dos demais personagens e do espectador. No plano linguístico, atores não nordestinos expressam-se num arremedo de língua que não é falada em lugar nenhum do Brasil, muito menos no Nordeste. Costumo dizer que aquela deve ser a língua do Nordeste de Marte! Mas nós sabemos muito bem que essa atitude representa uma forma de marginalização e exclusão. (2007: 43-44)

O preconceito contra o nordestino parte da linguagem, como dito, porque “todo signo é ideológico, e portanto também o signo linguístico vê-se marcado pelo horizonte social de uma época e de um grupo social determinados” (BAKHTIN, 2006: 43). Ou seja: ao marcar o nordestino com o ferro da exclusão, impõe-se primeiro essa segregação sobre sua forma de expressar-se e de comunicar-se com o outro, pois descaracterizando o discurso, desconsidera-se o sujeito que o profere.

Luiz, no entanto, faz uma antítese de sua obra: ele tem acesso a todos os ambientes de requinte do país, e leva consigo o modus comunicandi de todos aqueles que são obrigados a ficar do lado de fora: ele não abre os portões régios aos “nordestinados” que lá tão piedosamente esperam, mas faz transpassá-los o olhar desse nordestino e sua maneira de dizer eu e de conceber o mundo. Em A triste partida, por exemplo, encontraremos 63 ocorrências (sendo 50 delas palavras distintas) de variações não-padrão do léxico português; conforme a ordem que aparecem no texto, temos: oitubro, tamo, experiênça, sá, natá, natá, vermeio, janêro, feverêro, entonce, pra, sinhô, tá, ôtra, tria, famia, nóis, vamo, Palo, vivê, morrê, nóis, vamo, Palo, tá, aleia, pro, inté, vendêro, fazendêro, poco, dinhêro, famia, viajá, terrívi, pra, natá, oiando, pra, corrê, fio, iscrama, comê, morrê, fulô, rosêra, dexando, azu, fio, Su, chegaro, percura, trabaia, prano, vortar, arguma, notíça, móio, óio, famia, vorta, paú, Su.

São diversos fenômenos lingüísticos que estão presentes nessa representação da língua nordestina, entre eles: supressão de sons através de aférese (ôtra, tá, tamo), síncope (dexando, dinhêro, fazendêro, feverêro, janêro, Palo, poco, pra, pro, rosêra) e apócope (azu, chegaro, comê, corrê, experiênça, fulô, morrê, natá, notíça, sá, sinhô, Su, terrívi, vendêro, viajá, vivê); adição de sons através de epêntese (nóis); transformação de sons por meio de yeísmo (aleia, famia, fio, móio, oiando, óio, trabaia, tria, vermeio), rotacismo (arguma, iscrama, prano, vortá, vortar), nasalização (entonce, inté) entre outras (iscrama, oitubro, percura, sinhô).

Há também uma série de desvios do tipo morfossintático, embora de menor importância e frequência. Assim temos desvios de: concordância (nas pedra/ nós torna a voltar/ meus brinquedo/ nos fio/ dois ano/ três ano/ das banda), emprego do tempo verbal (Nós torna a voltar), regência (Chegaro em São Paulo) e colocação pronominal (lhe foge/ lhe compra/ lhe bota).

Ao lado desse linguajar próprio do Nordeste, Luiz assume também uma série de imagens que descrevem, definem e defendem esse Nordeste, ou seja, transformam-no em um espaço idealizado e carregado de significações afetivas, ou seja, uma “comunidade inventada” (HALL, 2005: 47-50). Para percebermos essas imagens, passaremos agora a uma análise estrutural da obra considerada:

Meu Deus, meu Deus...

Setembro passou / com Oitubro e Novembro / Já tamo em Dezembro / Meu Deus, que é de nós, / Meu Deus, meu Deus / Assim fala o pobre / Do seco Nordeste / Com medo da peste / Da fome feroz / Ai, ai, ai, ai [5]

Nesses versos iniciais, Luiz apresenta-nos o sujeito de sua poética: “o pobre do seco Nordeste”, a própria nomeação carrega as marcas da identidade: pobreza e secura. Em Luiz, essas características estão causalmente relacionadas, ou seja, aquela advém desta, por um fatalismo natural, o que esconde a verdadeira causa social e política que torna as populações vítimas da seca e relegadas à pobreza, quando não, miséria.

O autor da letra, o poeta Patativa do Assaré, em entrevista concedida a Célia Leal afirma que essa estrofe foi acréscimo do Rei do Baião:

Patativa - [...] A Triste Partida cantada por Luiz Gonzaga é uma maravilha. Ela é muito tocante. Fiz com muito carinho e com muito amor. Ele cantava com muito sentimento, mas colocou um refrão que não tinha.

- Qual era o refrão?

Patativa - O que dizia assim: “setembro passou, outubro, novembro, já tamo em dezembro meu Deus que é de nós” (aí tem uma voz que diz: meu Deus, meu Deus). De ir para o Norte, meu seco nordeste, o medo é da fome feroz. Essa parte foi ele que fez com o povo dele e parece que ficou mais triste ainda, assim com esse “ai, ai” que tem pelo meio. (LEAL, 2009 - grifo nosso)

Luiz reproduz a mesma mentalidade ingênua de seu povo, visualizando a pobreza nordestina como algo advindo das condições geográficas do lugar, quando na verdade, uma distribuição responsável dos recursos hídricos do Nordeste seria suficiente para garantir a todos condições básicas de subsistência e de desenvolvimento, ou seja, o problema da seca, longe de ser uma questão de escassez, é uma problema de gestão (REBOUÇAS, 1997).

“Setembro passou/ com Oitubro e Novembro/ Já tamo em Dezembro/ Meu Deus, que é de nós”, com esses versos, delineia-se a questão da seca como um evento temporalmente localizado: setembro é o último mês de chuva invernal no Nordeste, se não há chuva até esse mês, então haverá uma seca prolongada. Passado setembro, pode-se apenas esperar chuvas esparsas e irregulares de verão.

3.2 O Nordeste da fé

Interessante perceber que A triste partida antes de ser uma música é uma oração: o interlocutor é o próprio Deus, conforme informa-nos os vocativos. Nessa oração, apresentam-se a Deus os medos (“Com medo da peste/ Da fome feroz”) e as dores (“Ai, ai, ai, ai”) do povo nordestino. Razão pela qual se justifica, mais uma vez, a escolha da música, embora sua composição não seja de Luiz, mas por participar de sua produção enquanto interpretação e encarnação do discurso.

Continua o poeta:

A treze do mês / Ele fez experiênça / Perdeu sua crença / Nas pedra de sá, / Meu Deus, meu Deus / Mas noutra esperança / Com gosto se agarra / Pensando na barra / Do alegre Natá / Ai, ai, ai, ai

Rompeu-se o Natá / Porém barra não veio / O sol bem vermeio / Nasceu muito além / Meu Deus, meu Deus / Na copa da mata / Buzina a cigarra / Ninguém vê a barra / Pois barra não tem / Ai, ai, ai, ai

Aqui, o poeta refere-se às crenças de seu povo, sua fé, sua religiosidade: para prever a secura ou a fartura do ano seguinte, o nordestino guia-se pelo período compreendido entre o dia de Santa Luzia (13 de dezembro) e o dia de Natal (25 de dezembro). Para isso, faz-se uma série de experiência e de relações entre a distribuição e o volume da chuvas e determinados eventos místicos: “Essas ‘experiências’ representam muito mais que exercícios de possiveis previsões de chuva. São, antes de tudo, um traço cultural do povo do nordeste que tem no bom inverno a redenção de sua miséria com a fartura de sua lavoura.” (ALBUQUERQUE JR., 2009).

São experiências diversas:

O movimento dos astros, do vento e das nuvens, o canto dos pássaros, o comportamento de insetos e outros animais, a evolução do ciclo de determinados vegetais, a coincidência de números e datas são fatos que, aparentemente, sem qualquer relação científica, explicam, justificam e fundamentam a previsibilidade do tempo.

Manuel Correia de Andrade em seu livro A Terra e o Homem no Nordeste descreve-nos essas experiências:

Assim, preocupando-se com uma possível seca, o sertanejo está sempre às voltas com as “experiências” e prognósticos sobre a possibilidade de chuvas nos anos que virão. Para estas “experiências” o dia de Santa Luzia (13 de dezembro) é o mais importante, uma vez que o toma como ponto de referência para o mês de janeiro do ano seguinte e os dias que se seguem correspondem aos outros meses (assim o dia 14 é fevereiro, 15 é março, 16 é abril e assim por diante até o dia 24 que corresponde ao mês de dezembro). No dia em que chover, o mês correspondente será de chuva e naquele em que não chover, o mês correspondente será seco.

Outra experiência consiste em colocar-se seis pedras de sal, representando os seis primeiros meses do ano (vindouro) sobre um plano, no “sereno”, na noite de Santa Luzia. Pela manhã, a pedra que mais estiver dissolvida representa o mês mais chuvoso do ano que se segue. Se essas experiências derem resultados negativos, o sertanejo, apreensivo, começa a pensar nos horrores da seca e na possível necessidade de retirada. [6]

De modo semelhante se configura a previsão através da Barra do Natal (clarão que aparece no céu como abóboda do sol nascente), por exemplo, se ela tiver “fechada” de um lado a outro do nascente é sinal de um inverno chuvoso (um “bom inverno”) [7].

Esses versos nos falam da esperança do povo nordestino, que transfere para relações místicas e poderes sobrenaturais a resposta para suas dificuldades. Vítima da natureza, encontra no mundo de Deus a mão carinhosa que lhe pode dar um pouco de sossego e paz.

Mas o flagelo do nordestino não encontra na esperança e na fé o termo da agonia:

Sem chuva na terra / Descamba Janêro, / Depois feverêro / E o mesmo verão / Meu Deus, meu Deus / Entonce o nortista / Pensando consigo / Diz: “isso é castigo / não chove mais não” / Ai, ai, ai, ai

Apela pra Março / Que é o mês preferido / Do santo querido / Sinhô São José / Meu Deus, meu Deus / Mas nada de chuva / Tá tudo sem jeito / Lhe foge do peito / O resto da fé / Ai, ai, ai, ai

A maior de todas as dores é sem dúvida a perda da crença em dias melhores, isso retira do nordestino o fôlego da luta e o faz entregar-se à fatalidade da vida. Interessante perceber que a seca é visualizada como um castigo (“isso é castigo/ não chove mais não”), que religiosamente representa um sofrimento imposto por uma falta cometida. Novamente a culpa social pela pobreza e pelo sofrimento é retirada das mãos dos poderes constituídos e colocada na natureza e no próprio sofredor: pensar a seca como castigo é pensar numa pena imposta por Deus por um pecado cometido, como se fosse pecado ser nordestino.

A figura de São José de do mês de março é aqui emblemática. Diz-nos Patativa do Assaré:

O que lhe inspirou a compor “A Triste Partida”?
Patativa - Foi em 1958. A viagem a São Paulo era a coisa mais penosa do mundo. Não havia estrada naquele tempo. As famílias viajavam em caminhão, numa bancada rude com cobertas rudes e saíam por esse mundo. E vendo o movimento criei na minha imaginação uma família saindo do sertão com destino a São Paulo. Fiz o trabalho com muito cuidado, com muito carinho porque também sou sertanejo, sei das experiências dos caboclos. Sei que quando tudo dá errado, no dia 19 de março, dia da esperança para os sertanejos e não há melhora, eles vão embora com toda a família para São Paulo”. (LEAL, 2009 - grifo nosso)

O dia 19 de março é a grande esperança do povo nordestino, como disse Patativa, todos esperam que nesse dia chova, pois assim iniciam as plantações, “plantam milho em São José para colher em São João”, pois três meses é o período que normalmente é suficiente para a maturação desse vegetal, usado como prato principal da festa de São João (24 de junho), no mês que marca o início do inverno propriamente dito. O dia de São João é, alías, o grande natal nordestino.

Quando não chove no dia de São José, o nordestino passa a desacreditar que sua safra será boa, e cai na descrença. Esse momento é de particular importância simbólica para a identidade nordestina: quando os sinais místicos apontam em direção indesejada, não procura mudar o seu destino, mas se submete procurando uma nova história para si, ao invés de procurar inverter o destino aparentemente inexorável que o vitimiza.

Zezito Guedes em seu artigo O folclore e a seca (Revista folclore, nº 216) registra alguns ditados populares que evidenciam essa crença:

- A seca é um castigo para o povo que não tem mais fé.

- A seca só aparece quando o povo está pecando demais.

- A falta de merecimento traz a seca para o sertão.

- A seca acontece de vez em quando para desconto dos pecados.

- A seca vem para que o povo se lembre de Deus.

- Pela desobediência do povo é que vem a seca para a terra.

- O povo profana a Deus e a seca vem com castigo. [7]

3.3 O Nordeste viandante e oprimido

Sem alternativas nem esperanças, o nordestino parte para São Paulo, e a partir desse momento, a música passa a retratar desde a tomada de decisão em partir até a chegada à megalópole:

Agora pensando / Ele segue ôtra tria / Chamando a famia / Começa a dizer / Meu Deus, meu Deus / Eu vendo meu burro / Meu jegue e o cavalo / Nóis vamo a São Palo / Vivê ou morrê / Ai, ai, ai, ai

Nóis vamo a São Palo / Que a coisa tá feia / Por terras aléia / Nós vamos vagar / Meu Deus, meu Deus / Se o nosso destino / Não for tão mesquinho / Ai pro mesmo cantinho / Nós torna a voltar / Ai, ai, ai, ai

E vende seu burro / Jumento e o cavalo / Inté mesmo o galo / Vendêro também / Meu Deus, meu Deus / Pois logo aparece / Feliz fazendêro / Por pôco dinhêro / Lhe compra o que tem / Ai, ai, ai, ai

Em um caminhão / Ele joga a famia / Chegou o triste dia / Já vai viajá / Meu Deus, meu Deus / A seca terrívi / Que tudo devora / Ai, lhe bota pra fora / Da terra natá / Ai, ai, ai, ai

O carro já corre / No topo da serra / Oiando pra terra / Seu berço, seu lá / Meu Deus, meu Deus / Aquele nortista / Partido de pena / De longe acena / Adeus meu lugar / Ai, ai, ai, ai

No dia seguinte / Já tudo enfadado / E o carro embalado / Veloz a corrê / Meu Deus, meu Deus / Tão triste, coitado / Falando saudoso / Com seu fio choroso / Iscrama a dizer / Ai, ai, ai, ai

De pena e saudade / Papai sei que morro / Meu pobre cachorro / Quem dá de comê? / Meu Deus, meu Deus / Já outro pergunta / Mãezinha, e meu gato? / Com fome, sem trato / Mimi vai morrê / Ai, ai, ai, ai

E a linda pequena / Tremendo de medo / “Mamãe, meus brinquedo / Meu pé de fulô?” / Meu Deus, meu Deus / Meu pé de rosêra / Coitado, ele seca / E minha boneca / Também lá ficou / Ai, ai, ai, ai

E assim vão dexando / Com choro e gemido / Do berço querido / Céu lindo e azu / Meu Deus, meu Deus / O pai, pesaroso / Nos fio pensando / E o carro rodando / Na estrada do Su / Ai, ai, ai, ai

É nesse momento que a música toma um tom ao mesmo tempo lírico e épico e se desenvolve numa conjunção de três elementos: terra, família e trabalho. Perceba-se como a noção de terra enquanto “lugar” confunde-se com o conceito de “casa”, donde advém a idéia de um Nordeste como casa, lugar familiar, espaço primordial de existência e de identidade, que não somente dá nome aos nordestinos, mas sobretudo representa o carinho familiar e vicinal, o Nordeste como um espaço de ser e de sentir.

Continua a identificação do nordestino com a natureza, que deixa de ser uma natureza distante e terrível - aquela que lhe fornece a certeza do destino em termos de seca e fartura - para tornar-se uma natureza doméstica: o galo, a flor, o gato, o cachorro... Tudo ganha colorido e brilho, afetivamente marcado no imaginário, que irá constituir a memória comum do Nordeste.

Interessante perceber que a terra seca e árida incapaz de fornecer aos seus habitantes o sustento, agora é vista como ideal, e deixá-la é algo que surge por meio de forças externas: a saída da terra é uma verdadeira tragédia, se morrer nela é algo terrível, deixá-la parece ainda mais recheado de horror, mas é também imperativo.

A poesia marca esse momento como um corte de cordão umbilical: as coisas deixadas para traz, que ocupavam um lugar “de direito” na vida daquelas pessoas - o que evidencia a naturalização que o nordestino faz de sua vida social e cultural, impedindo-o inclusive de um olhar crítico mais apurado - deixam um vazio que na verdade é ocupado pela idealização do ausente e pela saudade que faz sofrer mais que a fome.

Parece que as pessoas preferiam morrer ali, no seu lugar, no seu berço, no seu lar. Uma só coisa justifica a saída: é preciso garantir a vida aos filhos, no embate entre o amor à terra e o amor à família, vence este último, mas aquele permanece como um peso nos ombros dos que partem: partem os nordestinos, e o Nordeste vai com eles. O terceiro elemento completa o quadro: é preciso trabalhar, se não como trabalhar no Nordeste, então que seja noutro lugar.

Perceba-se como é clara a construção imagética desse lugar abandonado: o que é deixado tem pouco valor econômico, mas é de incomensurável valor para os que vão embora.

A poesia agora ocupa-se da vida do nordestino em São Paulo:

Chegaro em São Paulo / Sem cobre quebrado / E o pobre acanhado / Percura um patrão / Meu Deus, meu Deus / Só vê cara estranha / De estranha gente / Tudo é diferente / Do caro torrão / Ai, ai, ai, ai

Trabaia dois ano, / Três ano e mais ano / E sempre nos prano / De um dia vortar / Meu Deus, meu Deus / Mas nunca ele pode / Só vive devendo / E assim vai sofrendo / É sofrer sem parar / Ai, ai, ai, ai

A diáspora nordestina conhece apenas uma mudança espacial, no fundo permanece a mesma situação de opressão e de pobreza: se agora não falta agia, continua a escassez de vida e de esperança. A situação parece ainda mais grave: continua espoliado, mas em terra estrangeira.

O nordestino sublimiza sua revolta e transforma-a em saudade de sua terra, ao invés de contestar radicalmente as relações de trabalho que na verdade são as responsáveis por sua infelicidade. Ao fazer isso, o nordestino escolhe, inconscientemente permanecer no atraso cultural e na subserviência social e política.

Estrangeiro na terra alheia, esse sujeito enclausura-se na sua própria cultura para encontrar nela coragem para a resistência, mas essa resistência transforma-se quase sempre em labuta e nunca em luta por dignidade, igualdade e justiça.

Essa mudança de espaço só faz consolidar a imagética do Nordeste. Para compreensão dessa imagética, retomemos o conceito do Nordeste caracterizado por Albuquerque Jr. (2007) nos seguintes eixos:

i. O discurso da seca e a indústria da seca - após a grande seca de 1877-1879, o Brasil que só conhecia duas divisões regionais - Norte e Sul - vê a emergência do conceito de Nordeste, criado pelas elites políticas da região, falidas devido à crise de seu sistema de produção agrícola, também atingidas pela seca, para captar recursos do governo federal e sanar os prejuízos advindos dela. Na verdade, porém, os projetos governamentais nunca atingiam os verdadeiros fins, pois eram só oportunidades de corrupção. Esse discurso bem como esse modelo de corrupção acompanhará o Nordeste até os dias atuais, e será, inclusive, motivo de oposição e de preconceito das regiões mais ricas do país.

ii. O tradicionalismo - a elite nordestina foi perdendo gradualmente seu poder sobre a política nacional, e o golpe fatal foi dado com a proclamação da República e a política do Café-com-Leite, ou seja, com a exclusão da participação das classes dominantes do Nordeste. A cultura dessa região viveu, por isso, um apego ao passado, uma idealização exagerada da tradição e uma resistência ao progresso e ao desenvolvimento, pois viam neles uma ameaça ao poder e uma descaraterização do modo de produção material e imaterial ali praticado.

iii. A religiosidade - o beato e o romeiro marcam também o imaginário nordestino, emoldurados pelo fanatismo religioso. As figuras messiânicas, o devocionismo, a guerra entre os seguidores de Padre Cícero e as tropas de Franco Rabelo, em 1914, a transferência do poder de mudança da história da esfera humana para a divina, solidificaram a imagem de um Nordeste intrinsecamente relacionado a uma mística extremada e capaz de levar homens e mulheres a uma espécie de insânia em nome de suas crenças, constituídas de um sincretismo entre o catolicismo popular e o animismo e feitichismo africanos e indígenas.

iv. A violência - encarnadas pelo coronel e pelo cangaceiro, representantes do poder reacionário e revolucionário da região, respectivamente. Amplamente divulgados e explorados pelo movimento cultural tradicionalista e regionalista da Literatura, do Cinema e das Ciência Sociais, essas figuras passaram a definir a identidade nordestina a partir das relações de violência: aquele que manda estabelece seu poder porque tem uma tropa de capangas e não perdoa desobediência e traição; aquele que contesta o poder o faz pela via da ameaça, do roubo, do banditismo; e o homem mediano é pacato, mas um potencial assassino se sua honra for atingida. O nordestino é um pacifista que embainha uma faca na cintura.

O discurso da seca produz a figura do retirante, assim definida por Albuquerque Jr.:

A migração crescente e nordestinos para os grandes centros urbanos do Sul [...] é atribuída e explicada pela ocorrência das secas, marcando todos os migrantes nordestinos com a pecha de retirantes ou flagelados, quando, na verdade, esta vinha apenas agravar as causas mais fundamentais deste processo migratório que eram a concentração de propriedade da terra da região, as péssimas condições de trabalho oferecidas por uma economia em estágio ainda incipiente de capitalização e as modalidades de trabalho ali prevalecentes, que não privilegiavam o assalariamento nem respeitavam as lei trabalhistas [...].

A maior parte desses migrantes vêm da zona rural, a maioria não tem o mínimo domínio dos códigos que regem a vida numa grande cidade; seus hábitos, costumes, formas de pensar, de andar, de falar, estão marcados por sua vivência do campo e por sua condição social de homens pobres, analfabetos, submetidos a uma dura rotina de trabalho e a muitas privações, o que reforçará esta imagem, construída pelas própria elites nordestinas, em seus discursos políticos, de que seríamos uma região presa ao passado, uma região que reagia, inclusive, aos padrões modernos da sociedade ocidental. (2007: 107; 102)

Inferior e espoliado, a figura do retirante é acompanhado do cabra-macho, uma invenção do próprio migrante para fugir da humilhação insuportável de sua condição e subordinação, que de fato se concretizou em muitos episódios de violência.

3.4 A falácia discursiva da nordestinidade

Na verdade, a nordestinidade além de ser inventada é exterior, é um discurso produzido pela elite política e intelectual, assumido pelos nordestinos quando homogeneizados num lugar distante de sua terra natal e até certo ponto ininteligível. O fato de serem vítimas do preconceito, partilhar as mesmas condições de vida e participar das mesmas manifestações culturais faz com que os homens e mulheres, tão heterogêneos em suas regiões de origem, divididos pelas identidades estaduais e por suas rivalidades, se reconheçam como iguais.

A primeira falácia da nordestinidade é o nordestinês, pois não nenhuma possibilidade de unidade linguística da região, senão a idiomática. No entanto, esses tão diferentes homens unem-se, assumem o discurso do Nordeste e recompõem esse Nordeste no estrangeiro, genericamente chamado de Sul, através de suas feiras, de suas músicas, festas e danças e de suas celebrações religiosas.

Para marcar a idiossicracia dessa identidade, a imagem de nordestino é reduzido à figura do sertanejo, que é a síntese de todas as imagens anteriormente mencionadas, mas assim definida no interior do próprio Nordeste: o sertanejo é o excluído, quando em sua terra natal; o nordestino é o excluído quando está fora do Nordeste.

Essa unidade forçada é agora a temática das estrofes finais do poema de Patativa e de Luiz:

Se arguma notíça / das banda do Norte / Tem ele por sorte / O gosto de ouvir / Meu Deus, meu Deus / Lhe bate no peito / Saudade de móio / E as água nos óio / Começa a cair / Ai, ai, ai, ai

Do mundo afastado / Ali vive preso / Sofrendo desprezo / Devendo ao patrão / Meu Deus, meu Deus / O tempo rolando / Vai dia e vem dia / E aquela famia / Não vorta mais não / Ai, ai, ai, ai

Distante da terra / Tão seca mas boa / Exposto à garoa / A lama e o paú / Meu Deus, meu Deus / Faz pena o nortista / Tão forte, tão bravo / Viver como escravo / No Norte e no Su / Ai, ai, ai, ai

Essa é a parte da composição que de fato fala-nos de uma unidade real e concreta, a situação social que gerou a idealização expressa em todos os versos antecedentes: o nordestino, nordestinado nas regiões ricas do país, passa a cantar as saudades de sua terra, mera evasão, pois no Nordeste nada lhe era diferente, senão o clima e a possibilidade de escolher o modo como seria nomeado, e não obstinadamente subordinado à designação de “nordestino” ou de “nortista”, quando não de “baiano” e de “paraíba”.

O discurso de Nordeste, tal como encarnado em Luiz Gonzaga é, ao mesmo tempo, o discurso das elites sulistas e o discurso dos retirantes nortistas. E sobre isso, alerta-nos Patativa:

Ele chegou a deturpar a sua obra?
Patativa - Ele deturpou porque eu estava me referindo ao nordestino subordinado lá em São Paulo. Ele disse: viver como escravo no Norte e no Sul. Não é assim. Ele fez isso para agradar aos paulistas. (LEAL, 2009) [9]

O discurso da unidade cultural e da resistência nordestina, como uma idealização, embora sirva para uma afirmação enquanto identidade, uma afirmação da cultura e do modo de ser nordestino, constitui também um entrave ideológico à ruptura da história de exploração do nordestino: a fortaleza do nordestino cantado por Luiz serve para a luta pela sobrevivência, mas não para a luta pela transformação social.

A carreira musical do Rei do Baião trata-se de uma afirmação categórica, consciente e intencional da identidade nordestina, que se torna também a máxima expressão do ser nordestino, através dos amplos holofotes midiáticos que Luiz teve ao seu favor. Essa afirmação, porém é ambígua, pois ao mesmo tempo que solidifica a identidade, reforça o preconceito:

Mas as músicas de Gonzaga também foram responsáveis pela veiculação daqueles temas que iriam servir para reforçar o preconceito contra o nordestino, como a percepção deste como sendo um matuto, que teria o jumento como irmão, homem atrapalhado com o mundo da cidade, homem simplório, desconectado com as transformações que se passam no mundo, que não sabe se automóvel é homem ou mulher, homem reativo às transformações trazidas pela história, pela modernidade, homem moralista, machista, para quem cabeludo não tinha vez, embora suas músicas também tenham servido para questionar a própria forma como o nordestino era visto e para denunciar as condições de vida que a maioria da população sertaneja vivia. (ALBUQUERQUE JR., 2007: 120-121)

Nos versos finais, o poema fala-nos de um nordestino deslocado e infeliz, saudoso, eternamente saudoso de sua terra, um sujeito que não assumiu o novo espaço social em que se encontra, que não se abriu à novidade e refugia-se num passado cada vez mais distante. Um nordestino neurótico: vive em função de um possível retorno, mas uma mera utopia que não o ajuda a viver melhor e cada vez mais o oprime.

O herói de Luiz Gonzaga participa apenas da Ilíada, desconhece a Odisséia. Na verdade, o heroísmo nordestino é um anti-heroísmo: o que canta-se é a grandeza do oprimido não-liberto, de um sujeito ainda preso aos grilhões que sempre o acompanharam, do habitante da caverna que muda de endereço, mas nunca sobre a dura e íngreme inclinação que leva para fora dela.

Para não ter o ônus de inverter essa situação, o nordestino naturaliza a seca, a opressão, a desventura. A solução vem sempre do alto: a providência de Deus, as benesses das autoridades civis... Cabe ao nordestino a esperança, e a submissão a esse poder maior. Essa é a descrição da própria vida de Luiz: um nordestino “arretado”, mas cuja denúncia social é arte que agrada aos homens que oprimem o seu povo, ele mesmo senta-se à mesa e agrada àqueles que são a causa de tanto horror e dor causada aos nordestinos.

Saudade, opressão e passividade são as categorias que definem a situação desse nordestino deslocado, e a forma viril e forte com que ele é retratado é mero subterfúgio discursivo, pois sua virilidade e força são moedas de troca no mercado de trabalho, não armas de luta social e política. A indústria política do Nordeste engrandece para consolidar a pequenez e a escassez que de fato são identificações concretas do ser nordestino nesse novo espaço.

Assim se explica até essa condição subalterna do ser nordestino: ele é um bicho do mato, que está “acuado” no espaço das grandes cidades, obrigado a viver a li contra sua vontade. Na verdade, essa imagem de inadaptação assumida pelos nordestinos foi produzida pelos seus concorrentes no mercado de trabalho, isto é, os migrantes estrangeiros e as populações locais, conforme informa-nos Albuquerque Jr.:

O nordestino seria o produto da natureza hostil em que vivia. O nordestino seria um homem telúrico, figurando em seu corpo e mente a paisagem desolada e rude em que tinha de viver. Era quase um homem-cacto, um homem caatinga, por isso mesmo um ser seco, espinhento, agressivo, inóspito, hostil, pouco acolhedor, sofrido, torturado, de natureza imprevisível. Esta visão de que o nordestino é um homem próximo da natureza, também o estigmatizou como sendo um homem incapaz de conviver com o fenômeno urbano. (2007: 115)

Diante de todas essas evidências, deixando de lado juízos sociológicos acerca do discurso sobre o Nordeste, no tocante ao seu valor positivo ou negativo, podemos afirmar como inegável o fato de que a produção musical de Luiz Gonzaga tem como temática salutar a defesa do Nordeste e de seu povo, seja por meio de emblemas ou estigmas.

Cabe-nos, portanto, fazer uma ressalva: de fato, o que Luiz propagou como identidade nordestina não só engrandecia, como constituía entrave à libertação do povo nordestino do jugo de seus opressores, mas isso não é por má fé do grande Rei do Baião. Luiz é vítima da mesma mentalidade que fez os nordestinos assumires os estereótipos e engrandecer mais seu passado que lutar por melhores condições de vida no presente, além do mais, Luiz foi um grande defensor de seu povo e lutou bastante para desenvolver a sua terra natal.

É preciso reconhecer que o nordestino, e nessa classe inclui-se Luiz, foi um grande responsável pelo preconceito de que é alvo. No entanto, esse protagonismo do nordestino na construção do estereótipo estigmático nunca pode ser dito consciente, pois como seria um responsável por excluir-se voluntariamente um sujeito que sequer sentia-se dono de sua própria história e de sua força produtiva? Se o nordestino reforçou o preconceito, foi porque sua condição de vulnerável o deixava refém de seus próprios passos, tal como a difícil decisão de morrer de fome no sertão, ou penar nas “bandas do Sul”: assumir o preconceito, e mesmo produzi-lo é mera imperatividade das condições existenciais. A própria acriticidade do nordestino a que nos reportamos anteriormente não é imputável a ele mesmo, por ser fruto de seu analfabetismo cultural e político.

Uma coisa porém é certa, Luiz cantou o Nordeste, proclamou o ser nordestino gestado pelos poderosos e assumido pelos humildes, mas, não obstante suas conotações pejorativas, um ser que dava orgulho aos pequeninos, bem como força e sentido para continuar a luta interminável de seus dias. A imagética do Nordeste é uma imagética da necessidade, em que a escassez é a própria vida, e o retirante é o sujeito eternamente em busca de um lugar para viver e, paradoxalmente, preso à sua terra natal.

 

5 CONCLUSÃO

A triste partida torna-se, portanto, uma bandeira que acena para a direção de um Nordeste eternamente curvado sobre si mesmo, e de um nordestino que, apesar da distância e da impossibilidade do retorno à sua “terra ideal”, encontra nas cacimbas da infância a água doce que renova as veias da vida. Por isso, Luiz, em seu último show, no dia 6 de junho de 1989 no Teatro Guararapes do Centro de Convenções de Recife, em que recebeu homenagens de vários artistas do país, proferiu as seguintes palavras, antes de finalizá-lo:

Boa Noite minha gente! (...) Minha gente, não preciso dizer que estou enfermo. Venho receber essa Homenagem. Estou feliz, graças a Deus, por ter conseguido chegar aqui. E estou até melhor um pouquinho. Quem sabe, né?

“Quero ser lembrado como o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo, o sertão; que cantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor. Este sanfoneiro viveu feliz por ver o seu nome reconhecido por outros poetas, como Gonzaguinha, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Alceu Valença. Quero ser lembrado como o sanfoneiro que cantou muito o seu povo, que foi honesto, que criou filhos, que amou a vida, deixando um exemplo de trabalho, de paz e amor.

Quero ser lembrado como o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo, o sertão; que cantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor.

Gostaria que lembrassem que sou filho de Januário e dona Santana. Gostaria que lembrassem muito de mm; que esse sanfoneiro amou muito seu povo, o Sertão. Decantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes. Decantou os valentes, os covardes e também o amor. (...) Muito obrigado.” (MOTA, 2007)

Dada a intencionalidade de sua linguagem, a natureza estilística do uso das variações, esse uso é motivado pela própria defesa do universo nordestino. Isso significa que a linguagem de Luiz Gonzaga não apenas reforça a identidade por ele incorporada, veiculada e defendida, mas sobretudo é pensada de modo a transparecê-la. Essa linguagem compõe um quadro de riquíssima imagética, da qual participa A triste partida, imagética que fala-nos de um Nordeste, que dá unidade a uma região tão diversificada quanto os sofrimentos de seu povo.

O estilo de Luiz Gonzaga tem por fundamento e forma a cultura que ele idealizou e solidificou no cenário político-ideológico nacional: sua linguagem foi pensada segundo o “estatuto da nordestinidade” sócio-historicamente inventado, e seu uso da linguagem nordestina não é mera coincidência, mas é planejada, medida e avaliada segundo essa ideologia de seu autor.

As imagens por ele veiculadas são aquelas que fazem do Nordeste um mosaico, recomposto quando a terra natal torna-se distante e o outro, o outro sofredor tão diferente de mim, torna-se igual, conterrâneo, nordestino. O Nordeste de que nos fala Luiz é o nordeste da necessidade, recomposto como uma tentativa de resgate da própria história e da dignidade, uma reinvenção do lugar de origem daqueles para os quais sua nova situação histórico-social é fatalmente ininteligível. O Nordeste de Luiz é a busca de uma feição.

 

REFERÊNCIAS

ABÍLIO NETO. Luiz Gonzaga, A triste partida e poeta Patativa do Assaré. Disponível em: http://www.luizberto.com/?p=60464. Acesso em: 25 abr. 2010.

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz. Preconceito de origem geográfica e de lugar: as fronteiras da discórdia. São Paulo: Cortez, 2007.

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 49 ed. São Paulo: Loyola, 2007.

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Trad. de Michel Lahud e Yara F. Vieira. 12 ed. São Paulo: HUCITEC, 2006.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. de Tomaz Tadeu da. Silva, Guaracira Lopes Loureno. 10 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

LEAL, Célia. Minha homenagem a Patativa do Assaré. Disponível em: http://www. paraibanews.com/2009/03/05/minha-homenagem-a-patativa-do-assare/. Acesso em: 25 abr. 2010.

LINHARES, Thelma Regina S. Seca, cordel e folclore. Disponível em: http://tarciocosta. com.br/content/view/392/41/. Acesso em: 25 abr. 2010.

MARQUES, Raimundo. O profeta popular e suas experiências. Disponível em: http:// publimarkes.blogspot.com/2010_01_01_archive.html. Acesso em: 25 abr. 2010.

MOTA, José F. da. Luiz Gonzaga, o Rei do Baião (1912-1989). ago. 2007. Disponível em: http://www.reidobaiao.com.br/biografia-por-jose-fabio-da-mota. Acesso em: 28 out. 2009.

PIMENTEL, Luís. Luiz Gonzaga. São Paulo: Moderna, 2007.

REBOUÇAS, Aldo da C. Água na região Nordeste: desperdício e escassez. Estudos avançados. vol. 11, n. 29, p. 127-154, 1997. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ea/ v11n29/v11n29a07.pdf. Acesso em: 25 abr. 2010.

SANTOS, Sebastião L. dos. Variações linguísticas: O confronto das equivalências e choque dos contrários. Disponível em: http://www.utp.br/eletras/ea/eletras1/art04.htm. Acesso em: 28 out. 2009.

TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolinguística. São Paulo: Ática, 2004.

 

NOTAS

[1] MATOS, Marcos Paulo Santa Rosa. Graduando em Letras (Licenciatura) e Direito (Bacharelado) pela Faculdade de Ciências Humanas e Sociais - Ages.

[2] Nordeste independente, composição de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova.

[3] Estes dois últimos gravaram a versão inglesa White Wings.

[4] Composição de Patativa do Assaré.

[5] Vide Anexo, composição completa.

[6] Citado por Albuquerque Jr. (2009).

[7] Baseado em Marques (2010).

[8] Citado por Linhares (2010).

[9] Para um conhecimento mais apurado das diferenças entre A triste partida composta por Patativa do Assaré e a música cantada por Luiz Gonzaga, vide Anexo.

 

ANEXO - Quadro comparativo das letras de Luiz Gonzaga e de Patativa do Assaré para o poema A triste partida

Estrofe Letra de Luiz Gonzaga Letra de Patativa do Assaré
Meu Deus, meu Deus...  

Setembro passou
com Oitubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai

Setembro passou,
com oitubro e novembro
Já tamo em dezembro.
Meu Deus, que é de nós?
Assim fala o pobre
do seco Nordeste,
Com medo da peste,
Da fome feroz.

A treze do mês
Ele fez experiênça
Perdeu sua crença
Nas pedra de sá,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natá
Ai, ai, ai, ai

A treze do mês
ele fez a experiença,
Perdeu sua crença
Nas pedra de sá.
Mas nôta experiença
com gosto se agarra,
pensando na barra
Do alegre Natá.

Rompeu-se o Natá
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois barra não tem
Ai, ai, ai, ai

Rompeu-se o Natá,
porém barra não veio,
O só, bem vermeio,
Nasceu munto além.
Na copa da mata,
buzina a cigarra,
Ninguém vê a barra,
Pois barra não tem.

Sem chuva na terra
Descamba Janêro,
Depois feverêro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo
não chove mais não"
Ai, ai, ai, ai

Sem chuva na terra
descamba janêro
Depois, feverêro,
E o mêrmo verão.
Entonce o roceiro
Pensando consigo,
Diz isso é castigo!
Não chove mais não!

Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Sinhô São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai

Apela pra março,
que é o mês preferido
Do Santo querido
Senhô São José.
Mas nada de chuva!
tá tudo sem jeito,
Lhe foge do peito
O resto da fé.

Agora pensando
Ele segue ôtra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nóis vamo a São Palo
Vivê ou morrê
Ai, ai, ai, ai

Agora pensando
segui ôtra tria,
Chamando a famia
Começa a dizê:
Eu vendo meu burro,
meu jegue e o cavalo,
Nós vamo a São Palo
Vivê ou morrê.

Nóis vamo a São Palo
Que a coisa tá feia
Por terras aleia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Ai pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar Ai, ai, ai, ai

Nós vamo a São Palo,
que a coisa tá feia;
Por terras aleia
Nós vamo vagá.
Se o nosso destino
não fô tão mesquinho,
Pro mêrmo cantinho
Nós torna a vortá.

E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Vendêro também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendêro
Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai

E vende o seu burro,
o jumento e o cavalo,
Inté mêrmo o galo
Vendêro também,
Pois logo aparece
feliz fazendêro,
Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem.

10ª

Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajá
Meu Deus, meu Deus
A seca terrívi
Que tudo devora
Ai, lhe bota pra fora
Da terra natá
Ai, ai, ai, ai

Em riba do carro
se junta a famia;
Chegou o triste dia,
Já vai viajá.
A seca terrive,
que tudo devora,
Lhe bota pra fora
Da terra natá.

11ª

O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lá
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai

O carro já corre
no topo da serra.
Oiando pra terra
Seu berço, seu lá,
Aquele nortista,
partindo de pena,
De longe inda acena:
Adeus, Ceará!

12ª

No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a corrê
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Com seu fio choroso
Iscrama a dizer
Ai, ai, ai, ai

No dia seguinte,
á tudo enfadado,
E o carro embalado,
Veloz a corrê,
Tão triste, coitado,
falando saudoso,
Um fio choroso
Escrama a dizê:

13ª

De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comê?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrê
Ai, ai, ai, ai

-De pena e sodade,
papai sei que morro!
Meu pobre cachorro,
Quem dá de comê?
Já ôto pergunta:
- Mãezinha e meu gato?
Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!

14ª

E a linda pequena
Tremendo de medo
"Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?"
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de rosêra
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai

E a linda pequena,
tremendo de medo:
- Mamãe meus brinquedo!
Meus pé de fulô!
Meu pé de rosêra,
coitado, ele seca!
E a minha boneca
Também lá ficou.

15ª

E assim vão dexando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo e azu
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos fio pensando
E o carro rodando
Na estrada do Su
Ai, ai, ai, ai

E assim vão dexando,
com choro e gemido,
Do berço querido
O céu lindo e azu.
Os pai, pesaroso,
nos fio pensando,
E o carro rodando
Na estrada do Su.

16ª

Chegaro em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Percura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai

Chegaro em São Palo
sem cobre, quebrado.
O pobre, acanhado,
Percura um patrão.
Só vê cara estranha,
da mais feia gente,
Tudo é diferente
Do caro torrão.

17ª

Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai

Trabaia dois ano,
três ano e mais ano,
E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode,
só veve devendo,
E assim vai sofrendo
Tormento sem fim.

18ª

Se arguma notíça
das banda do Norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade de móio
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai

Se arguma notícia
das banda do Norte
Tem ele por sorte
o gosto de uvi,
Lhe bate no peito
sodade de móio,
E as água dos óio
Começa a caí.

19ª

Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai

Do mundo afastado,
sofrendo desprezo,
Ali veve preso,
Devendo ao patrão.
O tempo rolando,
vai dia, vem dia,
E aquela famia
não vorta mais não!

20ª

Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
A lama e o paú
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Su
Ai, ai, ai, ai

Distante da terra
tão seca, mas boa,
Exposto à garoa,
À lama e ao paú,
Faz pena o nortista,
tão forte, tão bravo,
Vivê como escravo
Nas terra do Su.

 

© Marcos Paulo Santa Rosa Matos 2011

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

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