O matador-herói: exercício de identidades
no romance O Matador, de Patrícia Melo

Glaucia Mirian Silva Vaz*

Professora da Secretaria Estadual de Educação do Estado de Goiás ( Seduc-GO)
Brasil
glaucia.mirian@gmail.com


 

   
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Resumo: Nossa proposta é analisar a obra O Matador (2002), da escritora contemporânea Patrícia Melo, cuja trama é movida por uma experimentação de identidades, especialmente matador-herói, a qual se torna incompatível, em alguns momentos, com algumas práticas e regras configuradas por determinados sistemas de poder. Consideramos que as identidades praticadas pelo protagonista Máiquel são um efeito de relações de poder e propomos refletir sobre a relação entre esta prática identitária e os micropoderes. Para tanto, nos apoiaremos em Zygmunt Bauman, conforme entrevista publicada em Identidade (2005). De Stuart Hall, em A identidade cultural na pós-modernidade (2005), traremos as discussões sobre o descentramento do sujeito e a crise de identidade enquanto efeito das mudanças estruturais pelas quais passam as sociedades da modernidade tardia. A fim de contrapor diferentes noções de (crise de) identidade, resgataremos a teoria de Erik Erikson, em Identidade, crise e juventude (1971), segundo o qual, a crise é parte do processo de desenvolvimento da personalidade, caracterizando cada fase do processo como uma luta necessária entre ajustamentos e desajustamentos.
Palavras-chave: literatura contemporânea, identidade, personagem. Patrícia Melo

Resumen: Nuestro objetivo es analizar la obra O Matador (2002), de la escritora contemporánea Patricia Melo, cuya trama está impulsada por una experimentación de identidades, especialmente matador-héroe, que se convierte en irregular, a veces, con algunas prácticas y normas establecidas por algunos sistemas de alimentación. Creemos que las identidades practicadas por el protagonista Maiquel son un efecto de relaciones de poder y proponemos reflexionar sobre la relación entre esta práctica identitária y micropoderes. Para obtener una explicación sobre el tema de la identidad, le apoyamos en Zygmunt Bauman, según una entrevista publicada en Identidade (2005). Con Stuart Hall, en A identidade cultural na pós-modernidade (2005), vamos a llevar la discusión del tema y la crisis de identidad como el efecto de los cambios estructurales que son las sociedades de la modernidad tardía. Con el fin de contrarrestar las distintas nociones de (la crisis) la identidad, vamos rescatar la teoría de Erik Erikson , en Identidade, crise e juventude (1971), en las que la crisis es parte del proceso de desarrollo de la personalidad, que caracterizan a cada etapa como una lucha necesaria entre los ajustes y desajustes.
Palabras clave: literatura contemporánea, identidad, personaje. Patrícia Melo

 

Considerações iniciais

“É uma literatura urbana, que mostra as patologias da modernidade, e o homem perdido num mundo confuso” [1]. São as palavras de Patrícia Melo, nascida em Assis, São Paulo. Estreou com Acqua Toffana (1994) e escreveu mais seis romances: O Matador (1995), Elogio da Mentira (1998), Inferno (2000), Valsa Negra (2003), Mundo Perdido (2005) e Jonas, o copromanta (2008). Também são de sua autoria roteiros de peças teatrais como Duas mulheres e um cadáver (2001) e A Ordem do Mundo (2008) e roteiros de filmes como O xangô de Baker Street (2001), escrito a partir do romance homônimo de Jô Soares e Cachorro! (2008) [2], baseado em obra de Nelson Rodrigues. Muitos de seus livros foram traduzidos e publicados em diversos países da Europa e nos Estados Unidos. Um desses romances, O Matador (1995), alcançou os prêmios Deux Océans (França, 1996) e Deutscher Krimi Preis (Alemanha, 1998) e foi adaptado por Rubem Fonseca para roteiro do filme O Homem do Ano (2003). A obra Inferno (2000) lhe deu o Prêmio Jabuti em 2000 e, no ano seguinte, a autora recebeu o Prêmio de Melhor Roteiro para Cinema no Festival de Miami pela adaptação de Bufo & Spallanzani (1996). Até o momento, também tem publicado crônicas no site português PNETLiteratura [3] e escreve um novo romance, cujas tramas giram em torno do roubo de um cadáver.

Sua escrita se caracteriza por dar voz narrativa às personagens que falam em primeira pessoa. Essas personagens são assassinos, drogados, ladrões, traficantes e pessoas pobres da periferia dos centros urbanos. Sujeitos que vivem em meio à violência, ao caos, à angústia e ao entorno dos meios midiáticos de consumo das grandes cidades brasileiras.

Nossa análise será acerca do exercício da identidade matador-herói. Bauman, conforme entrevista publicada em Identidade (2005), será nosso alicerce teórico para discutir sobre essa categoria. De Stuart Hall, em A identidade cultural na pós-modernidade, traremos as discussões sobre o descentramento do sujeito e a crise de identidade enquanto efeito das mudanças estruturais pelas quais passam as sociedades da modernidade tardia. A fim de contrapor diferentes noções de (crise de) identidade, resgataremos a teoria de Erik Erikson, em Identidade: crise e juventude (1971), segundo a qual a crise é parte do processo de desenvolvimento da personalidade, caracterizando cada fase do processo como uma luta necessária entre ajustamentos e desajustamentos. A partir destes autores, verificaremos a problemática da identidade em diferentes perspectivas. Tal divisão de capítulos não é aleatória, pois representa nossa hipótese: primeiro é preciso produzir uma noção de criminoso para justificar o dispositivo que permitirá o exercício de poder, sendo que essa relação (mútua) entre produção e manutenção de verdades e de poderes está ligada ao exercício de identidades da personagem Máiquel.

Inicialemente, apresentaremos o resumo do romance e, à medida que desenvolvermos as análises, resgataremos detalhes mais esclarecedores da história: para pagar uma aposta que perdeu, Máiquel, um vendedor de loja de carros usados, pinta os cabelos de loiro e tira seu antigo bigode. Ele acaba gostando do novo visual e, para estreá-lo, compra roupas novas e chama uma vendedora bonita para sair. Ao chegar ao bar onde deveria estar seu primo, para quem mostraria o pagamento da aposta, um rapaz ri da aparência de Máiquel, que se sente ofendido e o desafia para um duelo. O rapaz, Suel, não o leva a sério, mesmo assim Máiquel aparece no local e hora combinados e mata Suel pelas costas. As pessoas do bairro comemoram a morte de Suel e Máiquel se torna querido por todos e respeitado, inclusive, pelas autoridades locais. A partir daí, ele é contratado para matar mais pessoas. Máiquel se torna um tipo de justiceiro que elimina estupradores, ladrões de grande e médio porte, criminosos em geral.

Dado o enredo do romance, passemos, então, à explanação do arcabouço teórico.

 

A identidade em questão: modernização, cultura e desenvolvimento da personalidade

As problemáticas da identidade não constituem novidade no campo do saber e são levantadas por diversas perspectivas teórico-metodológicas. O estudo da identidade ou dos efeitos que ela produz pode ser encontrado no âmbito das ciências psicológicas, da sociologia, da filosofia e dos estudos culturais. Neste artigo, gostaríamos de colocaremos em discussão três estudiosos da identidade: Zygmunt Bauman (2005), Erik Erikson (1971) e Stuart Hall (2005). Após apresentarmos os principais argumentos de cada autor, passaremos à análise do exercício de identidade de Máiquel.

Afirma Bauman que a "fragilidade e a condição eternamente provisória da identidade não podem mais ser ocultadas. O segredo foi revelado. Mas esse é um fato novo, muito recente." (2005: p.22). A construção da identidade na pós-modernidade segue uma racionalidade do objetivo, ou seja, não é um trabalho que visa chegar a um objeto (como a imagem de um quebra-cabeça), mas sim um trabalho que deve contar com fragmentos de imagens diversos e numerosos. Não se trata, segundo Bauman (2005), de pensar em como chegar ao projeto final, mas em como usar os meios disponíveis, pois o objetivo (imagem final da identidade) não foi posto. Bauman (2005) relembra Levi Strauss quando este diz que o construtor de identidade é um bricoleur que constrói diversos objetos com o material que tem em suas mãos. A identidade nem sempre foi fluida. Ela passou por sua fase sólida quando, na modernidade, as instituições e estruturas político-sociais ainda se encontravam sólidas, as quais davam a certeza da formação e manutenção das identidades pessoais. Hoje, sem esse apelo ao Estado, torna-se mais fluida a formação de uma identidade, o que leva os sujeitos a tomarem muitas posições, a experimentarem identidades várias. Afinal, há muitas disponíveis e é tentador experimentá-las. A sociedade não é mais o árbitro justo e honesto que coordena os indivíduos e os orienta; ela é o outro jogador, desonesto e trapaceiro, é o lugar em que as pessoas devem buscar uma resposta única e verdadeira, mas é outro campo de luta. A sociedade exerce seu poder, agora, de forma não localizável (BAUMAN, 2005: p. 58).

Outra perspectiva de identidade encontramos em Erik Erikson (1971), que acredita que as pessoas passam por fases de desenvolvimento cognitivo e social de sua personalidade e que cada fase é acompanhada de uma crise que, conforme um diagrama do autor, caracteriza-se por um enfrentamento entre o desenvolvimento e a mudança. Assim, teríamos confiança versus desconfiança, autonomia versus dúvida ou vergonha, iniciativa versus culpa, integridade versus desespero, etc. Portanto, o sentido da palavra crise não é negativo; pelo contrário, significa a fonte ontogenética, pois a criança se desenvolve a partir da crise, de (des) ajustamentos e de superação de suas vulnerabilidades.

Um ponto basilar do desenvolvimento da personalidade é a confiança, ou seja, uma atitude que as pessoas tomam seguramente em relação ao mundo (ao outro) e a si mesmas. Quando a confiança é prejudicada, os adultos, por exemplo, demonstram certa alienação, um comportamento que Erikson (1971) chama de “ensimesmamento” e que tem nos psicóticos sua manifestação crônica: o indivíduo fecha-se em si mesmo e torna-se indiferente aos demais. Por esse motivo (a deterioração da confiança que culmina na alienação), o sentimento de confiança é tão crucial para o desenvolvimento da personalidade, o qual não acontece sem o diálogo entre os fatores cognitivo e social.

Pela perspectiva cultural, temos Stuart Hall (2005), para quem as identidades estão sendo “descentradas” na modernidade tardia, isto é, o indivíduo tem passado por uma perda de sentido de si e do mundo, por um deslocamento de seu lugar social e de si mesmo. Tal crise de identidade se deve às mudanças culturais decorrentes do processo de globalização. O autor defende a idéia de que nos encontramos em um momento pós toda noção de essência, o que podemos verificar através de três concepções de identidade, as quais estão imbricadas às concepções de sujeito do Iluminismo, sujeito sociológico e pós-moderno.

O nascimento da ideia de sujeito relaciona-se a pensadores como Descartes, para quem o indivíduo é o centro da mente e Locke, para quem a identidade é contínua, permanece a mesma e se define pelo alcance de consciência do indivíduo. Hall (2005) explica que esse centramento e essa unidade deram lugar a uma percepção mais coletiva, pois as teorias liberais (que postulavam um sujeito soberano) já não conseguiam lidar as estruturas de estado-nação em que se transformavam as sociedades modernas. A partir de então, temos o sujeito sociológico, cuja identidade é estabelecida dentro da estrutura social. Esta visão vem da solidificação das ciências sociais no século XX.

O sujeito pós-moderno ou descentrado, segundo Hall (2005), afirma-se com cinco movimentos teóricos nas ciências humanas a partir do século XX: o primeiro descentramento refere-se ao pensamento marxista de que o homem não age senão sob condições históricas determinadas e que não há essência universal, mas sim relações sociais que movem a história, sendo o indivíduo interpelado e determinado por essas relações. O segundo descentramento está na tese freudiana de que nossas identidades são constituídas por processos simbólicos do inconsciente, o que contrapõe a ideia de sujeito racional e autônomo cartesiano. Lacan prossegue essa teoria acrescentando uma leitura em que a identidade é aprendida e construída na relação do "eu" com o Outro. A identidade não é inata e sim um processo gradativo que ocorre na interação com aquilo que é exterior ao indivíduo. O terceiro descentramento acontece quando Saussure afirma que a língua não é apenas instrumento de expressão. O indivíduo não tem controle sobre a língua, pois ele não é autor de suas afirmações. Foucault colabora para o quarto descentramento ao defender sua genealogia, a qual permite diagnosticar a individualização do sujeito através de dispositivos de poder. Este tipo de poder, a disciplina, tem como objetivo controlar as condutas humanas através de instituições cada vez mais coletivas e organizadas. O feminismo, que culmina na década de 60 do século XX, promove grande politização das identidades e das subjetividades através de questionamentos políticos, sociais, econômicos e culturais. Fato este que o faz ultrapassar os limites de contestação da posição social das mulheres e constituir o quinto descentramento do sujeito.

Considerando que estes autores enunciam a partir de diferentes áreas do saber, não nos posicionaremos contra qualquer destes modos de compreender a identidade, pois não se pode criticar uma linha teórica a partir dos pressupostos de outra. Buscamos, em última instância, apresentar diferentes visões acerca desta temática para que fosse possível melhor situar a análise da personagem Máiquel através da noção de identidade fluida e da função desta identidade como um dispositivo de poder. A principal diferença entre estes três pontos de vista está no desejo de realização identitária. Em Erikson (1971), as crises, tão necessárias ao desenvolvimento da personalidade, são um aspecto inerente à formação psicológica do indivíduo. As crises de identidade são parte do conjunto de transformações psicológicas que culminam na formação de uma identidade final. Bauman (2005), por sua vez, defende que no mundo pós-moderno, o objetivo das pessoas não é a identidade, mas a opção entre várias identidades. A crise seria efeito da incapacidade de lidar com a quantidade e diversidade de identidades que nos são disponibilizadas pelo processo de globalização. Hall (2005) aponta a crise de identidade como produto das mudanças sócio-econômicas. A identidade, para Hall (2005), deixa de ser uma para ser várias, mas não como uma estratégia don-juanes, conforme Bauman (2005), e sim como uma determinação cultural.

As identidades da personagem Máiquel serão vistas pelo viés da fluidez defendido por Bauman (2005) não porque desconsideramos os apontamentos de Erikson (1971) e de Hall (2005), mas porque entendemos este protagonista como um indivíduo que revela dificuldades em lidar com as identidades que lhe estão disponíveis. E, como vimos, muitas dessas identidades são incompatíveis entre si, pois são criadas para permitir o funcionamento de certos dispositivos de poder, tais como a prática de matar pessoas e instituição denominada Ombra.

 

O matador: herói e criminoso

Depois do primeiro serviço que realiza para Carvalho, Máiquel é contratado para alguns outros, especialmente, para matar ladrões que roubaram os pertences de algum empresário ou advogado. Desde então, temos as primeiras afirmações identitárias do matador: Máiquel, então, assume a identidade de herói. Ele entra na ordem dos discursos que instauram uma verdade sobre o que fez (matar). Se dizem que ele é bom, então Máiquel é bom.

Não se trata, bem entendido, nem da sucessão dos instantes do tempo, nem da pluralidade dos diversos sujeitos pensantes; trata-se de cesuras que rompem o instante e dispersam o sujeito em uma pluralidade de posições e de funções possíveis (FOUCAULT, 2006: p. 58).

As relações de poder predizem identidades que devem ser exercidas numa ordem do discurso, nos limites de um dado regime de verdade. Em O Matador, Máiquel é atravessado por uma série de alternativas: poderia se casar, continuar trabalhando na loja de carros usados; criar Samanta como um pai presente, atento e “limpo”; constituir uma família e cumprir as funções de pai, marido e trabalhador sem complicações tantas, em vez de assumir a função matador. Os regimes de verdade do romance fazem funcionar identidades que lhe aparentam ser opções, mas opções que estão sujeitas a uma coerção social, a uma convenção, à (in) aceitabilidade de determinadas práticas. Mesmo porque, os crimes dos quais Máiquel é acusado funcionam como “serviços” bem aceitos pela sociedade até certo momento. A personagem procura sobreviver à movência identitária, à fluidez com que suas relações com o outro acontecem. Bauman (2005) afirma que a identidade está ligada à idéia de pertencimento a um grupo ou a uma comunidade e ambos, identidade e pertencimento, são flexíveis, mutáveis, cambiantes. Segundo o sociólogo, é impossível alcançar a identidade e aquele que se arrisca a isso, sofre por uma tarefa perdida, vã. Buscar a identidade é uma atitude infinitiva, que nunca acaba, nunca termina, nunca se realiza. A identidade é inventada, experimentada. Além disso, a identidade, que num momento se exerce, não mantém a forma por muito tempo e rapidamente se desfaz.

Segundo Bauman (2005), na globalização, as identidades são peças que não se encaixam umas nas outras como as peças de um quebra-cabeça a fim de montar uma imagem final que vem estabelecida. A identidade não possui uma meta a ser alcançada, ela própria é a meta, é o objetivo de tentar juntar as peças e formar imagens possíveis, de conciliar identidades tão diversas quantas nos forem apresentadas.

Ao pensarmos nas discussões de Bauman (2005), podemos ver que Máiquel sofre justamente porque busca uma unidade que não existe. Ora, se o sujeito se submete a assumir uma identidade unificada, fechada, ele viverá em agonia. Por outro lado, se opta por transitar entre tantas identidades que lhe estejam disponíveis, também não estará tranqüilo. Máiquel peregrina entre ser um pai de família ou ser um assassino; entre ser marido e amante; viciado e vendedor de animais. Conforme Bauman (2005), a identidade pós-moderna/líquida é uma condição don-juanesca. Não buscamos uma identidade fixa e coesa. Digamos que é possível fazer um paralelo entre Don Juan [4] (o primeiro herói moderno) e Máiquel: eles têm em comum a potencialidade de mutação. Se não há uma consciência da necessidade de mutação, o sujeito se encontra numa permanente agonia - crise de identidade. Máiquel, porque não pertence a nada. Já "Don Giovani vivia num estado permanente de autocriação" (BAUMAN, 2005: p. 58).

Entretanto, Máiquel não resiste a assumir o novo homem loiro que vê ao espelho e se rende a essa outra moldura, a essa identidade comprada, pois a identidade também se torna, segundo Bauman (2005), um produto de consumo. Máiquel, um consumidor, tem suas falas perpassadas pelas propagandas comerciais que estão misturadas às vozes das personagens, aos seus pensamentos e à narração da trama. Patrícia Melo deixa bem claro o quanto a personagem é influenciada pelo seu meio urbano. Não se trata de uma influência negativa, mas, digamos, previsível: vivendo em um grande centro urbano, o protagonista é invadido visual e auditivamente pelo apelo comercial. As falas das personagens se misturam aos cartazes e outdoors das ruas e não se sabe se estas estão lendo, se são seus pensamentos ou se se trata de uma fala à parte de seu discurso. A questão é que não se pode ignorar o caráter consumista e midiático das personagens e de suas identidades e práticas: "se os nossos ancestrais eram moldados e treinados por sua sociedade como, acima de tudo, produtores, somos cada vez mais moldados e treinados como, acima de tudo, consumidores, todo o resto vindo depois" (BAUMAN, 2005: p. 72).

Não se deve falar em "falsas identidades", pois isto criaria uma "verdadeira identidade" e esta não existe, já que não queremos apenas uma identidade, já que fugimos da prisão identitária, já que somos movidos por modismos passageiros e pouco duráveis. (BAUMAN, 2005: p. 97). Máiquel inventa sua identidade: um cara louro, no carro, ao lado uma mulher muito bonita que deve ser sua, levando-a para sair: um homem que ele nunca foi. A primeira coisa que Máiquel faz é comprar roupas novas, para investir no novo visual, no homem que agora é "iluminado por Deus":

Sempre me achei um homem feio. Há muitas curvas em meu rosto, muita carne também, nunca gostei. Meus olhos de sapo, meu nariz arredondado, sempre evitei espelhos. Naquele dia foi diferente. Fiquei admirando a imagem daquele ser humano que não era eu, um loiro, um desconhecido, um estranho. [...] De repente todos os meus traços tornaram-se harmônicos, a boca, que sempre fora caída, continuava caída, o nariz continuava arredondado, as pálpebras inchadas, porém tudo isso era bobagem porque havia algo maior, mais importante, a moldura. Havia luz em minha face, e não era luz artificial de refletores. Era aquela luz que a gente vê em imagens religiosas, luz de quem é iluminado por Deus. Foi assim que me senti, próximo de Deus (MELO, 2002: p. 10).

Notemos o abandono de uma identidade antiga, a transição entre uma e outra, identidade localizada que se quer criar para si e para os outros, a imagem inventada traduzida na vida sem bigode que não foi boa e que se mistura à superstição da personagem.

Máiquel entra na loja e escolhe uma vendedora: "Escolhi uma morena." (MELO, 2002: p. 11, grifo nosso). Ele apenas escolheu a mais bonita, uma morena, em que o artigo indefinido “uma” indica essa escolha entre várias. Cledir não era uma escolha, porque era bonita. Ele acaba de estar com Arlete e não se importa em tentar beijar Cledir. Ela, até certo momento, é a namorada que Máiquel decide ter para si porque ela é bonita, jovem, vendedora de uma loja do Mappin (shopping que, para Máiquel, exerce grande fascínio, posto ele ser um sujeito consumidor). Máiquel decide que Cledir será sua namorada. E, em vários momentos, passeia pelas alternativas entre casar-se e seguir o modelo padrão de felicidade ou enveredar-se pela marginalidade. Cledir representa uma opção de identidade para Máiquel. Casar-se, trabalhar, ser honesto, ter filhos e seguir uma vida comum: "aquela moça que estava na minha frente era uma moça para se amar, era sorte na minha vida, e aquele homem era eu mesmo, um sujeito de sorte. [...] Eu não era homem para Cledir" (MELO, 2002: p. 58).

Máiquel é um típico "em cima do muro". Não gosta de escolher. Foge das escolhas o tempo todo. Tanto optar quanto fugir são atitudes que lhe causam agonia (seria sua dor de dente?), mas, a partir do momento em que a identidade matador-herói passa a ser aceita, Máiquel começa a se sentir a vontade para exercê-la. Ele tenta, inclusive, conciliar identidades não compatíveis: assassino, pai, matador, estuprador, vendedor de animais (ele gosta de animais), amante de Érica, viciado em cocaína, herói e criminoso. Como tudo isso conviveria em harmonia? Bem, para Máiquel, algumas deveriam ser abandonadas. Interessante é que as identidades criminoso e herói não se chocam durante um bom tempo, mas isso só acontece porque há uma convenção e concessão sociais.

Muitas outras "combinações identitárias" seriam possíveis, desde que aceitas socialmente. Cledir, inclusive, apesar de saber que foi estuprada, projeta em Máiquel um marido e um pai para seu filho. Aliás, Cledir sabe, inclusive, que Máiquel é um assassino, ela assistiu ao evento com Suel. Érica também, e permite, mas depois quer que Máiquel pare. Máiquel até se anima em desistir do casamento, mas diante da morte da mãe de Cledir e da fragilidade da moça, o rapaz volta atrás e cumpre seu papel. Patrícia Melo cria uma personagem capaz de amar e matar. Isso é absurdo? Não. Máiquel mata Cledir. Ora, Máiquel matou Suel e Ezequiel com muita frieza, porém Gorba, Érica e Cledir são tratados com muito afeto. Samanta, a filha de Máiquel de certa forma também. Depois de estuprar Cledir, sente muita pena dela. Faz planos de dar uma educação a Érica, alimenta e cuida do porco em vez de comê-lo. A personagem revela carinho pelos animais da loja em que trabalha a até mesmo pelo seu patrão. O próprio Máiquel percebe a brusca transição de uma identidade a outra: "Foi assim, as coisas aconteceram desse jeito. Ele foi a primeira pessoa que matei. Até isso acontecer, eu era apenas um garoto que vendia carros usados e torcia para o São Paulo Futebol Clube" (MELO, 2002: p. 16).

 

Considerações finais

Pudemos observar que o enquadramento de um sujeito no grupo “sujeira social” ocorre diante de suas práticas e que, antes de tudo, é bom ponderar se essas práticas são aceitas ou não, concepção que está ligada à ideia de ordem. Então, o estranho e o sujo foram analisados mediante um olhar atento à localização de suas práticas na ordem estabelecida. Além disso, a aceitabilidade ou não de algumas práticas está imbricada à circulação de dizeres que fazem com que essas práticas sejam aceitas. Em O Matador, personagens como Suel, Ezequiel e Neno compõem esta sujeira porque infringem leis. Suel rouba, Ezequiel estupra e Neno é acusado de latrocínio (ele mata os vigias das empresas que assalta). No entanto, não bastando dizer que são a impureza social daquela comunidade somente porque praticam crimes, ou seja, infringem leis, entendemos que tais personagens são parte da sujeira que deve ser eliminada porque suas práticas se voltam contra pessoas de uma classe de prestígio social, econômico e étnico: doutores e empresários, ricos (em relação ao demais moradores da periferia) e “brancos”, além de policiais e traficantes. Não fosse isso, o protagonista que em um momento é o herói do bairro, também se encaixaria nesta “sujeira”. Mesmo assim, ele é o cidadão do ano. É Máiquel quem limpa a sujeira e é por esse motivo que se torna um herói. A aliança com a autoridade (representada pelo delegado Santana) é ponto alto da negociação entre Máiquel e a sociedade.

Em O Matador, como as relações de poder predizem identidades que devem ser exercidas numa ordem do discurso, nos limites de um dado regime de verdade e como o protagonista Máiquel procura sobreviver à movência identitária, à fluidez com que suas relações com o outro acontecem, confirmando a visão de Bauman (2005), para quem a identidade é inventada, experimentada, não mantém a forma por muito tempo e rapidamente se desfaz.

 

Notas:

* Este artigo é parte de uma pesquisa mais extensa realizada no período de 2009 a 2010, durante curso de pós-graduação lato sensu em Letras - Leitura e Ensino pela Universidade Federal de Goiás - Campus Catalão. Brasil, sob orientação da professora Dra. Luciana Borges. A monografia é intitulada Identidade e relações de micropoderes em O Matador, de Patrícia Melo.

[1] Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI61904-15220,00.html. Revista Época. Mente Aberta. Reportagem Todos querem ser iguais a ela. 20 de fevereiro de 2009.

[2] As informações sobre os roteiros de peças e filmes foram retiradas do site PNETLiteratura, cujo endereço encontra-se na próxima nota.

[3] Endereço: http://www.pnetliteratura.pt/

[4] Bauman (2005) vê a personagem Don Juan como o inventor da estratégia de seguir o jogo da sociedade: não ser fixo nem localizável, ser versátil, imprevisível, flexível e volátil. As habilidades de permanente autocriação, de espontaneidade e de vitalidade caracterizam o herói moderno, pois estas características, explica Bauman (2005), são uma manifestação das inquietações e dos anseios do sujeito moderno e fazem com que Michel Serres, em sua obra Hermes, considere Don Juan o primeiro herói da modernidade.

 

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Trad. Maria João da Costa Pereira. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

——O mal estar na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

ERIKSON, Erik H. Identidade, crise e juventude. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1971.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 10 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

MELO, Patrícia. O matador. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

[*] Glaucia Mirian Silva Vaz. Especialista em Letras - Leitura e Ensino (Universidade Federal de Goiás - CAC). Mestranda em Estudos Linguísticos (Universidade Federal de Uberlândia - ILEEL). Professora da Secretaria Estadual de Educação do Estado de Goiás ( Seduc-GO).

 

© Glaucia Mirian Silva Vaz 2011

Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad Complutense de Madrid

El URL de este documento es http://www.ucm.es/info/especulo/numero48/.html